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De volta a Los Angeles

Por Marco Carvalho

04
fevereiro
2015



Há um tempo atrás usei este espaço para compartilhar a minha aventura/experiência vivida em Los Angeles (leia aqui). Na época, eu era um diretor de arte de agência, apaixonado pela cidade, mas com a passagem de volta já comprada. Não falava nada de inglês, e a minha ambição era maior que a minha carteira. Vim aqui para estudar cinema e depois da minha formatura, um super-convite da Capsula Filmes me fez voltar para a cidade onde a minha mãe mora, Porto Alegre.

Hoje, me vejo numa situação parecidíssima com a anterior e por isso, resolvi alongar a minha madrugada e dividir as diferenças desta nova aventura/oportunidade que estou tendo aqui. A cidade, pouca coisa mudou, mas o nosso conhecimento agora é pleno. O networking é muito maior, dominamos a língua e os amigos que fizemos ainda estão aqui com os mesmos braços abertos de sempre. Também continuamos completamente deslumbrados com a cidade e com as expectativas que temos em estar aqui.

Escrevo em primeira pessoal do plural, pois nada disso estaria sendo possível sem a minha namorada. Além de ter topado a primeira vez, nem levantou a pestana para esta segunda chance. Engana-se quem pensa que esta nossa nova vinda seja um escape. Se bem que, talvez seja. Antes de me adiantar em todas as reclamações que eu tenho do mercado brasileiro, tanto para a propaganda, quanto para o entretenimento - ou - ir direto a atacar a nossa realidade urbana, falando sobre a violência, os impostos e os absurdos que acontecem diante de nossos olhos todos os dias, vou me reservar ao direito de falar somente do que a nossa alma sente aqui - e agora. Já que este foi o principal motivo da mudança.

Depois de mais de quatro anos plenos, trabalhando no Brasil de forma pesada e exaustiva, eu como diretor e roteirista e ela como atendimento em agência - nos demos conta que estávamos indo rumo a um lugar que não queríamos. Ignorância é uma virtude. Talvez se ela não tivesse topado da primeira vez, e conhecido tudo o que eu conheci - provavelmente eu estaria ainda sentado na mesma mesa da agência, discutindo briefings e descobrindo que a “minha versão” nem chegou aos olhos do cliente. O modelo já acabou faz tempo.

Largamos tudo aí. Deixamos o apartamento bem chaveado e nossas mães com a incumbência de mandar fotos pelo WhatsApp das correspondências importantes. Não são muitas, a maioria está em débito automático. Chegamos aqui com quase nada de bagagem e usando as experiências anteriores em menos de 15 dias já tínhamos endereço, carro, telefones e mobília (bom, alguma parte dela).

Agora o desafio é outro. Muito mais sério do que foi em 2007. Largamos tudo por lá também, mas desta vez a coisa foi um pouco maior. No momento, eu estava à frente da minha própria produtora que era pequena, mas muito corajosa. Em 18 meses, desenvolvemos uma websérie que conta com mais de 6 milhões de hits, uma peça de teatro popular, uma série de televisão e até um título original no Netflix. Já tínhamos chegado a um faturamento superior aos sete dígitos e o crescimento era iminente. Um prédio de dois andares seria o nosso novo endereço e a equipe estaria sendo duplicada até que em um fim de tarde de quinta-feira qualquer, tudo aconteceu. Tudo mesmo.

Na época, eu estava profundamente envolvido no projeto da eleição da Senadora Ana Amélia Lemos como Governadora do Rio Grande do Sul - que no fim não se concretizou. Eu era o diretor geral para televisão. Em um dia pesado, como quase todos que envolvem política, recebi uma ligação para uma reunião no canal de TV. Neste famigerado dia, eu estava dirigindo a minha VW Brasília 1980, verde pampa, que tinha comprado para ser mascote e carro de produção da produtora (quando ela quisesse funcionar). Ao sair do portão do QG da campanha, tudo começou a dar errado.

Obviamente, a Brasília não pegou. Os seguranças da casa me ajudaram com uma ponte na bateria. Saí correndo, entre aspas, com a Brasília e cheguei até o estacionamento da televisão. Lá, toca o meu telefone - era a minha produtora executiva pedindo demissão de forma irredutível, por um motivo pessoal. Quando chego na recepção do canal, o telefone toca novamente: o corretor da imobiliária me avisando que ele teve problema com a documentação do prédio novo da produtora. Algo que se resolveria facilmente, mas não depois de ter me atrasado por causa de uma “chupeta" na Brasília. Estresse alto. Na sala de espera, momentos antes da reunião, outra ligação: um importante funcionário, que nos serviria como gerente de estúdio e iria gerenciar a reforma do prédio recusa a proposta que eu tinha feito e ele já tinha aceito. A casa caiu. Totalmente, diga-se de passagem.

Recolho as minhas peças - como sempre fazia com a Brasília - e entro na reunião com o meu já conhecido e carismático sorriso. Este encontro, na minha cabeça, era a renovação da série que fizemos no início do ano. Quebra de recorde de audiência, um retorno online nunca visto, atores sendo reconhecidos publicamente e uma incrível relação com o canal. Errado eu, não quiseram renovar. O dia estava completo.

Fui para a casa na velocidade que a Brasilia me permitia e fiz todas as contas possíveis. Quanto tinha no banco, quanto tinha na produtora, quanto valiam os carros, o que faltava para quitar o apartamento e quais eram os custos de fechar a produtora em um final de ano conturbado. Depois de algumas horas ao telefone com o contador, eu tinha um número. Minha namorada chegou logo em seguida, viu a bagunça que tinha se tornado meu escritório em casa e ‘realizou’ comigo o que eu queria que ela acreditasse: fazia sentido a gente voltar.

Los Angeles pra gente sempre fez sentido. Desde que voltamos para o Brasil, nunca tiramos a cidade das nossas cabeças. Literalmente, na nossa sala, em cima do sofá, tínhamos uma foto de quase três metros do Tiago Trindade exibindo Downtown LA. Passamos todos os dezembros aqui, com direito a réveillon em Vegas. Vinhamos ver os amigos, como turistas, e tínhamos um pacto de sempre ir a restaurantes diferentes. Depois de quatro anos morando na cidade, somados aos três meses de dezembro como turistas, ainda tínhamos muito o que desvendar pela cidade.

A parte boa ainda está aqui. Cruzamos com estrelas de cinema, moramos a duas quadras da Warner Bros., e toda hora acompanhamos tapings de TV shows e vemos gravações pela cidade. Para quem é do ramo, isso é sensacional. Tu sente a comunicação funcionando, em todos os sentidos. Dos billboards nas ruas, as espertezas de inovações em comunicação que a gente vê aqui pela primeira vez - a sensação é de estar no meio do universo.

Porém, nossa missão aqui é mais séria. Temos um tempo contado para entrar no mercado, relações aqui demoram para ser concretizadas. Tu tenta marcar uma reunião e se te responderem, tu corre o risco de pedirem para retornar em três ou seis meses. Ninguém vai te receber na mesma semana, aqui, nem teu amigo pessoal, se teu interesse for profissional. Se tu conseguir uma entrevista, já te considera um vitorioso. A indústria é blindada, se divide em níveis de trabalho. Você claramente consegue ver quem é A, B ou C em nível - e estes não se misturam, não falam nem a mesma língua. Quem está dentro, sabe o que sofreu para entrar e não vai dar de mão-beijada nada, nem para um grande amigo. Esteja pronto, caso você queira seguir o mesmo caminho que estou tentando.

Aqui relógio continua a correr. O dólar continua a subir e o meu gerente do banco a se preocupar. Mas estamos preparados. Sabíamos o que iríamos enfrentar e estamos encarando de tudo por aqui, com o pé no chão e o objetivo bem claro nas nossas cabeças. Torça pela gente. Um beijo mãe, vem logo me visitar.

Marco Carvalho é diretor e roteirista, focado em comédia. Atuou como diretor de arte por mais de oito anos. Formado em Film Directing pela UCLA, trabalhou no Brasil para as produtoras Capsula Filmes e Hero. Também é responsável pela série Coisas que Porto Alegre Fala. Hoje, mora e trabalha em Los Angeles e é representado no Brasil pela Estação Filmes.
marcocarvalho@estacaofilmes.com.br
www.watchmarco.com