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por Laís Prado

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Festival do Clube 2018

Papo reto com o maior etimólogo do país, na segunda, 24

20
setembro
2018



Professor de língua portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, Mário Eduardo Viaro é considerado o mais importante etimólogo brasileiro. Etimologia é o estudo da origem e da evolução das palavras. Trata da origem de um termo, seja na forma mais antiga conhecida, seja em alguma etapa de sua evolução. Viaro é autor dos livros Etimologia (editora Contexto) e Manual de Etimologia do Português (editora Globo). E é também vice-coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa de Etimologia e História da Língua Portuguesa.

Mas sua experiência vai além da academia. Foi colunista da revista Língua Portuguesa (entre 2006 e 2015) e fez parte do projeto Beco das Palavras, no Museu da Língua Portuguesa (fechado desde dezembro de 2015, quando um grande incêndio o atingiu), que tinha curadoria de Marcelo Tas. Era uma instalação interativa em que o visitante juntava sílabas com as mãos e formava uma palavra, vendo uma animação sobre sua origem.  Ele está envolvido agora na retomada desse projeto, já que o Museu deve ser reaberto em 2019. E também com a elaboração de um dicionário etimológico online da língua portuguesa.

No Festival, será possível saber mais sobre o tema no painel “A origem das palavras e das expressões”, segunda-feira, entre 14h e 15h30, na sala dos Workshops / Papo Reto da Cinemateca. Um dos pontos que o professor deverá abordar é o tabu que envolve certos termos e o impacto do politicamente correto sobre as expressões. Viaro conta mais sobre sua experiência e sua visão do uso das palavras nesta conversa com o Clubeonline. Não perca a oportunidade de trocar ideias com ele ao vivo sobre a origem e a formação de matéria-prima tão importante para a indústria da comunicação.

 

CLUBEONLINE - O senhor é etimólogo. Vê as palavras com outro olhar do que a grande maioria da população. De que forma diria que o brasileiro trata as palavras? O que ele sabe da origem das palavras e das expressões?

MÁRIO VIARO – A etimologia é uma ciência. Da mesma forma que conceitos científicos não são apreendidos pela experiência, mas sim pelo estudo detalhado dos dados e das informações, não é possível que alguém saiba a origem das palavras sem estudá-las, sem investigá-las. Não existe etimologia feita por meio de introspecção: isso seria apenas uma hipótese, que muitas vezes não passa pelo crivo dos dados. Portanto, não é um problema dos brasileiros: ninguém sabe a cura do câncer sem investigar, ninguém pode falar sobre a história sem pesquisar. Assim também é com a etimologia. Existe um conhecimento pseudoetimológico muito grande disseminado por livros e pela internet, mas muitas afirmações sobre a origem desta ou daquela palavra não passam sequer à primeira tentativa de investigação. O principal problema das falsas etimologias é o anacronismo, mas também a incompatibilidade entre a proposta pseudoetimológica e a incompatibilidade com o conhecimento acumulado da Linguística há duzentos anos.

CLUBEONLINE - O que acha das “invenções” brasileiras que se ampliaram com o uso da internet? Muitas expressões surgem e até significados se deturpam. Para o brasileiro, é divertido ver coisas como “sextou”, “sabadou”, “turistando”, “mitou”, “comofas”.

VIARO – Como sou linguista, trato as palavras sem julgá-las se estão certas ou erradas. Quem avalia isso é um gramático normativo e quais são os critérios que utiliza para dizer se algo está certo é errado são incompreensíveis. Não há nenhum mandamento ditado sobre o Monte Sinai por Deus para dizer se uma palavra é boa ou não é. A própria gramática normativa nem sempre foi assim, mas a vertente logicizante que surge nos séculos XVII e XVIII é que tem essa característica de dar maiores direitos a uma palavra do que a outras. Assim sendo, nenhuma língua pode ser considerada viva se não houver neologismos e novas palavras. E nem sempre se cria uma nova palavra por ela ser necessária. Criam-se novas palavras por duas razões: por não haver outro nome para designar as coisas ou porque gostamos de referir-nos às coisas com outros nomes mais expressivos. Portanto, não vejo "deturpação" nos sentidos, pois isso seria uma visão idealista com a qual não comungo. A única coisa que a internet fez de fato foi acelerar a transmissão de neologismos e palavras expressivas, mas não há nenhum mal nisso.

CLUBEONLINE - O que é o projeto do dicionário etimológico online da língua portuguesa? Quais são suas diferenças em relação aos dicionários online disponíveis hoje? Marcas poderiam patrocinar o desenvolvimento desse projeto?

VIARO – A língua portuguesa é o único idioma derivado do latim que não tem um dicionário etimológico à altura. Ou seja, exceto pelo trabalho de Antônio Geraldo Cunha e do Dicionário Houaiss, não temos segurança sobre a informação de quando uma palavra surgiu pela primeira vez na língua portuguesa. Essa informação é importantíssima para que não se façam etimologias fantasiosas.  O DELPo (Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa) pretende ser o primeiro dicionário etimológico da língua portuguesa com o rigor acadêmico necessário. Já temos mais de 15 mil verbetes, inseridos por meio de voluntários e bolsistas, mas, devido à falta de financiamento, há muito a fazer. Coletamos as ocorrências mais antigas, por meio de programas computacionais desenvolvidos pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP, classificamos e organizamos, mas até agora não temos como bancar uma equipe lexicográfica para fazer as definições dos verbetes, nem uma equipe que elabore a etimologia propriamente dita, devido aos cortes de gastos da USP. Com certeza, é possível e desejável o patrocínio dessa obra tão importante, desde que esteja de acordo com a regulamentação da USP. Estamos há cinco anos desenvolvendo os softwares e inserindo os dados, como podem ver no nosso site www.nehilp.org, mas até agora não tivemos nenhuma oferta interessante de patrocínio.

CLUBEONLINE - O senhor esteve envolvido com a instalação Beco das Palavras, no Museu da Língua Portuguesa. Como foi essa experiência e o que lições ela trouxe? É possível reviver um projeto como esse para aproximar o público da etimologia?

VIARO – Foi uma experiência incrível. Foi uma fase muito boa para a etimologia. Havia o museu recebendo milhares de visitantes, que se divertiam no Beco das Palavras, e também havia a revista Língua Portuguesa, em cuja coluna Etimologia eu trabalhei por quase dez anos. Mas toda essa situação mudou muito rapidamente. Pouco antes do incêndio, estávamos refazendo alguns vídeos e criando outros, juntos com o Marcelo Tas e com o Jarbas Mantovanini. Recentemente, retomamos o projeto, agora com a Isa Grinspum, pois o museu será reinaugurado e eu estou ansioso para ver as novas instalações que estão sendo planejadas.

CLUBEONLINE - Que cuidados um profissional de comunicação deve ter com as palavras e as expressões?

VIARO – Eu penso que o principal problema é o conhecimento. Há muita informação hoje em dia e pouco conhecimento. A pressa e a incapacidade de separar o joio do trigo impedem que o profissional de comunicação, normalmente sempre muito criativo, investigue a fundo um tema e acabe reforçando chavões, com o intuito de ser compreendido pela maior parte das pessoas. Isso tem um lado bom, pois se torna acessível, mas tem um lado péssimo, que torna tudo muito superficial. Quando falo que falta conhecimento, não estou me referindo ao que é certo e errado, pois isso qualquer gramática resolve, mas sim ao conhecimento da essência dos temas, a partir do qual podem nascer questionamentos inteligentes e provocadores, em vez de algo que crie uma satisfação imediata e contribua apenas para a inércia da falta do conhecimento.

CLUBEONLINE - O que irá mostrar em sua apresentação?

VIARO – Acho importante falar sobre a diferença entre a etimologia científica e a falsa etimologia, sobre como a língua funciona no tocante aos neologismos, estrangeirismos e empréstimos, falar sobre a vida e a morte das palavras, sobre questões associadas às palavras que não podem ser ditas por tabuísmo e por causa do chamado politicamente correto e se a etimologia pode auxiliar nessas questões.

CLUBEONLINE - Sempre se fala que cultura e educação são importantes. Mas há diferenças entre o que se fala e o que se faz. Como elas deveriam ser verdadeiramente valorizadas?

VIARO – Há muita coisa a ser feita. No entanto, o imediatismo e a demagogia fazem que coisas menos importantes para a sociedade e para o conhecimento sejam valorizadas e incentivadas. A falta de verba e de formação profissional é um dos problemas mais sérios. Produz-se muito do mesmo e pouco é investido em erudição com vistas a uma verdadeira criatividade. Temos a ideia imediatista de que algo tem de ser divertido e ao mesmo tempo revelador. No entanto coisas verdadeiramente reveladoras para serem apreciadas com fineza por uma sociedade requereriam uma demanda mais sofisticada. Quando se pergunta de história do Brasil, por exemplo, há trilhões de aspectos que poderiam ser investigados, mas ficamos sempre nas mesmas concepções simplistas, maniqueístas, como se já tivéssemos a resposta pronta e só queremos enfeitá-la. Na verdade, não temos respostas para quase nada porque as pessoas desabituaram-se a fazer perguntas e a procurar por si mesmas uma resposta para suas perguntas, para além daquilo que já sabem. Sem isso não se constrói nenhum pano de fundo dentro do qual a resposta faça algum sentido.

 

Lena Castellón

 

Confira a programação do Festival do Clube 2018aqui.

SERVIÇO: Festival do Clube de Criação

Quando: Setembro, 22, 23 e 24 - 2018 - sábado, domingo e segunda-feira

Local: Cinemateca Brasileira - São Paulo – Brasil

Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino

Hosted by: Clube de Criação

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Mário Viaro: 'A pressa e a incapacidade de separar o joio do trigo impedem que o profissional de comunicação, normalmente sempre muito criativo, investigue a fundo um tema e acabe reforçando chavões'