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por Laís Prado

O Espaço é Seu

O Espaço é Seu – 2

O pesadelo de T-Bone Burnett (Maurício Herszkowicz)

14
março
2019



Um pesadelo recorrente dos 10 aos 16 anos: numa igreja, homens de preto, sem rosto, cortam a mão direita das pessoas e a substituem por uma mão eletrônica, a ser controlada por eles. Há cerca de 15 anos, T-Bone Burnett (lenda viva da música americana e quem teve o pesadelo) entra numa Starbucks e percebe que todos da fila estão controlando (ou sendo controlados por?) seus smartphones (ou mãos mecânicas?).

O produtor musical, que coleciona Grammys e um Oscar pela música do filme "Crazy Heart", jogou aquilo tudo no ventilador em seu discurso aqui no South By Southwest (SxSW), marcando o início da fase musical do evento. Precisa dizer quem são os homens de preto?

O mundo se transformou num computador, a internet é uma máquina de vigilância e de propaganda, e as pessoas vão acreditar em tudo que ouvirem, contanto que elas ouçam a mesma coisa, muitas vezes. Citando nomes como o do teórico da comunicação Marshall McLuhan, T-Bone criou paralelos da época em que vivemos com outros períodos nefastos da humanidade, quando uma ou duas grandes forças controlam a informação e fazem a vigilância sobre os demais.

O que seriam os gigantes da tecnologia sem data, sem informação? Dizem que a informação (sobre mim, sobre você, sobre tudo) é barata, dada praticamente de graça o tempo todo na web. Se essa informação é tão barata assim, por que as duas maiores empresas de tecnologia, somadas, valem mais de um trilhão de dólares? Quem está errando na conta? E qual o papel da arte e da música nesse contexto?

No cenário semi apocalíptico desenhado por Burnett, iniciou-se meu primeiro dia no SxSW 2019. O DNA musical do evento é forte, o mais antigo dentre os setores do congresso. Praticamente todos os players estão aqui e a mistura de tantas áreas da indústria da música convergem no que, na minha opinião, é a razão de ser do SxSW - a arte e o consumo dela.

Na sala ao lado do discurso de Burnett, uma palestra sobre Música 3.0, com executivos da música, que trabalham para artistas como Childish Gambino, LAUV e John Legend. Notei que o emprego da maioria deles não existia há 10 anos e isso atesta o nome da palestra. A indústria da música foi quebrada e remontada durante os últimos 20 anos e a tendência é a de que cada vez mais empresas de tecnologia criem, em larga escala, serviços que uma gravadora só conseguia oferecer a alguns artistas. Se Burnett enxerga o vilão, nossos amigos 3.0 enxergam a luz no fim do túnel: a tecnologia colocou o artista no comando da sua própria carreira.

E que comando. Artistas como John Legend têm mais de 10 fontes de receita, incluindo um clube de vinho. O clube gera data sobre seus consumidores, e uma quantidade significativa de todos os ingressos da última turnê de Legend foram vendidos antecipadamente para esses usuários, graças aos famigerados dados.

No cenário 3.0, o conceito de gravadora vem sendo substituído (ainda que parcialmente) pelo conceito de equipe do artista. Já o trabalho dessa equipe, que pode estar dividido entre várias empresas, vai desde encontrar o público desse artista, até fazer com que o dinheiro chegue até ele.

Por último, uma palestra liderada por Kerry Trainor, CEO da Soundcloud, plataforma de música que vem subvertendo a ordem natural do marketing musical: artistas independentes competem de igual para igual com Drake e Post Malone. Soundcloud empoderou o mercado indie e faz com que inúmeros artistas tenham a chance de se conectar com sua audiência. Quando um artista efetivamente consegue algum status na plataforma, as gravadoras começam a farejar o cheiro de sucesso. Mas aí os termos de negociação já são bem mais favoráveis ao artista. Ao inverter a lógica, Soundcloud acabou criando um ecossistema único, onde muitos artistas assinam contratos extremamente flexíveis, sem necessariamente dar partes consideráveis de seus direitos.

Hoje ouvi a frase “Technology is about humans with creative vision trying to connect with other humans ("a Tecnologia é sobre humanos com visão criativa tentando se conectar com outros humanos"). Pode ser uma frase ingênua, mas ela pontua de forma perfeita o momento atual da indústria da música e da arte, e de como toda essa tecnologia, usada de forma positiva, pode ser uma alternativa ao pesadelo vivido por T-Bone Burnett em sua adolescência.

por Mauricio Herszkowicz, diretor de criação da MugShot e autor do projeto AlterMauz, que conta com a participação de artistas como Bernhoft e Zeeba.
Maurício Herszkowicz. Crédito: Müur Studio