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por Laís Prado

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O que fazer pra trabalhar na Europa?

Por Rodrigo Lebrun, da Wieden+Kennedy de Londres

05
dezembro
2010



O que fazer pra trabalhar na Europa?


Tenho que confessar que eu meio que estava evitando tocar no assunto. Acho publicitário falando da própria vida um lance meio chato, a menos que você seja o Washington ou seja mais ou menos da mesma época que ele (esses sim têm histórias boas pra contar). Antes que o meu criticismo pareça um pouco vazio, a verdade é que, como o futebol, a propaganda no geral se profissionalizou demais, virou business no mau sentido, perdeu um pouco da aura, do romance, do fazer com as mãos. Eu nem posso dizer que sou saudosista porque sequer tive a chance de viver essa época, mas nada me impede de sentir inveja. Talvez seja por isso que todo mundo adore Mad Men, porque representa exatamente o tipo de profissão que a gente gostaria de ter (e que um dia teve).


Enfim, voltando ao tópico de trabalhar na Europa, recebi e-mails de uma galera pensando em vir pra cá, pedindo dicas. É difícil dar uma receita de bolo e achar que o bolo vai ter o mesmo sabor pra todo mundo. Tem um ingrediente que se você não conseguir, a receita toda desanda: sorte.


Claro que a minha ideia aqui é tratar dos outros ingredientes, daqueles pelos quais  você pode fazer algo. Mais uma vez, cada experiência é única e essa é a minha.


Se você se encheu de aumentar logo e preço, escrever seu título de uma forma mais simples (simples em inglês é o jeito politicamente correto de chamar uma pessoa de retardada) e fazer anúncio de data que só publicitário lembra, meu amigo, a Europa é pra você...a publicidade, nem tanto. Verdade seja dita, o que a gente faz é legal, mas não é legal 100% do tempo. É uma profissão como qualquer outra. Tem dia que é um saco, aqui, aí e em qualquer lugar. Pense nisso antes de fazer as malas. Se ainda assim você quiser passar frio (-1ºC agorinha mesmo), pode continuar lendo.


Pense em mudar pra Europa como um plano que vai levar uns bons três anos pra concretizar. Parece muito tempo, mas de uma hora pra outra você percebe que não. (Se você for rico ou for de família rica, pode parar por aqui, minhas dicas são pra pessoas normais).


Você vai precisar de dinheiro, dupla cidadania (vou explicar essa parte melhor), saber a língua, e experiência (ou nenhuma experiência - também vou explicar melhor)


Dupla cidadania - ajuda e muito, é o que te faz vir pra cá e ser aceito na imigração (nêgo torce o nariz, às vezes, mas isso é problema deles, não meu), morar, passear e tudo mais sem entrevista no aeroporto e sem os pré requisitos absurdos da imigração (se você já estudou na Europa, sabe do que eu estou falando). O problema da cidadania é o processo de se obter. Eu tive sorte, primeiro por ter francesa, sem fila no consulado, sem cinco anos de espera, sem despachante querendo meu rim por um passaporte, sem todas as coisas que fazem a italiana ou a portuguesa uma via crucis. Quer pular a fila? Vale a pena dar entrada nos papéis no país de origem - diz a lenda que demora seis meses na Itália, mas precisa morar lá (que problema, né?).

Claro que você pode conseguir um visto de trabalho, tenho amigos que conseguiram e trabalham aqui numa boa. Mas você precisa ter um trampo legal que justifique a sua vinda pra cá (e toda a grana que o seu chefe vai ter que desembolsar pra te trazer). As coisas estão ainda mais complicadas com a crise, a Europa tá se fechando, aqui mesmo acabaram de aprovar uma lei que limita a entrada de imigrantes fora da União Europeia.


Conseguiu a cidadania? Tá na hora de virar mão de vaca. Guardar dinheiro pra aquele período em que você não estiver trabalhando. Muita gente fala que não quer vir pra cá e encarar sub-emprego e eu entendo. Minha dica pra vocês é: guarde 1000 ‘dinheiros’ x número de meses que você está disposto a ficar sem trabalhar (libra se for pra Inglaterra, euro se for pro resto da Europa). Se forem seis meses, 6.000, e por aí vai. Isso vai te poupar dor de cabeça, comprar tempo e aproveitar a Europa também. Se juntar essa grana vai levar uns 30 anos, você pode arranjar algo pra ir te mantendo por aqui. Pense em algo que te ajude a melhorar a língua, conhecer gente e que te dê algum tempo livre. No meu caso, eu tinha uma grana guardada, mas tive sorte (de novo) de arranjar meu primeiro trabalho depois de um mês.


Não vá ser Zé Mané de vir pra cá sem saber a língua dos caras, você vai reduzir a chance de te reconhecerem como um gênio da propaganda tremendamente. Na real, você vai reduzir sua chance de pegar ônibus pro lugar certo, achar um banheiro, fazer amigos, comer. Enfim, se o seu inglês é nulo, venha pra aprender direito. Não ache que em 6 meses você será um Shakespeare, porque isso não existe. Faz quase três anos que eu estou por aqui e tem dia que ainda dou umas engasgadas.


Pense que o seu portfólio é o seu CV, não adianta você dizer que vai se matar de trabalhar, vai dormir na agência e não cobrar nada (esse tipo de bobeira agência no Brasil que faz - ajudar filhinho de papai que consegue estagiar sem ganhar um puto - aqui em Londres é diferente). Você precisa mostrar do que é capaz, e isso vai além da sua pasta cheia de anúncio de datas comemorativas. Aqui tem espaço pra “mentir” um pouquinho, criar campanhas fantasmas e coisas que vão além da propaganda, como projetos pessoais. O povo aqui quer ver se você entende e consegue resolver um problema, se você executa uma ideia em mídias diferentes, se você entende como a internet funciona e por aí vai.
Essas coisas você aprende trabalhando, pegando briefing, entendendo o que estão te pedindo e criando. É isso que bota um fundo de verdade na sua campanha de mentirinha. No meu caso, precisei trabalhar 8 anos no Brasil em algumas agências bem bacanas antes de vir pra cá e isso me ajudou bastante (ajudou tanto quanto a sorte - olha ela aqui de novo).

Bota tudo num site (nem imprime nada, isso é bobeira) e sai mostrando. Ah, compra um laptop. Ele vai salvar sua vida algumas vezes.

Uma vez aqui, com trampo e grana, sai ligando para as agências, tenta marcar entrevista. Headhunters ajudam bem, mas o povo tende a torcer o nariz porque eles têm que pagar uma grana sobre o seu salário quando te contratam e os tempos andam meio bicudos.

Se você não tiver experiência nenhuma, vem pra fazer um curso legal, tá cheio de universidade f..dida. Aqui a grana pega ainda mais, porque tu não vai trabalhar por um ano (na maioria dos masters) ou mesmo dois (como acontece na RCA - que é o lugar mais foderoso, na minha opinião). Pense na Suécia também, eles têm um pico chamado HyperIsland que o povo aqui baba só de ouvir (leia mais a respeito aqui).

Se você está no meio do caminho, nem vem. Tu vai gastar uma grana, arranjar um trampo meia boca e descobrir o lado ruim da Europa. Rala um pouco mais por aí. Pense em ficar no Brasil.
Por uma década, esse vai ser o lugar mais legal do mundo, a Copa vai ser aí, a Olimpíada também, petróleo vai jorrar da torneira. Lembro do povo fazendo piada com o “Brasil é o país do futuro”. Bom, a piada ficou séria.

E todo mundo tá falando disso, Sampa está virando um centro cultural mundial, o povo aqui cada vez mais sabe o que está acontecendo aí e, mais do que isso, o povo aqui quer ir praí. A Monocle fala do Brasil, a Wallpaper fala do Brasil, assim como a Economist, o Financial Times, o The Guardian (e eu não estou falando do que está rolando no Rio - apesar deles estarem falando disso também).

Parece doido, mas não é. A primeira vez que ouvi a história de uma W+K no Brasil uma galera aqui começou a falar sobre passar um tempo aí. O foco de atenção deve ser o mesmo em outra agências e em outras empresas. Mais um motivo pra dar aquele tapa no Inglês: vai estar cheio de gringo por aí logo mais.


Finalmente, venha pra Europa pela Europa, não pela propaganda. Você precisa gostar da ideia de morar na gringa, mais do que da profissão. Por dois motivos: porque o começo vai ser bem difícil, o frio, a língua, a falta de amigos, não saber pra onde ir, a chuva, o preço das coisas.Demora um tempo pra se acostumar com isso tudo. Segundo, porque existe a chance de você ter que trabalhar em outra coisa (por opção ou não). Não faça isso estragar a experiência de estar aqui.


Ajudou?


Rodrigo Lebrun, criativo na Wieden+Kennedy de Londres.
Atualiza o blog Hi-fi Lo-fi quando dá tempo.
 
http://www.hifilofi.co.uk


Leia texto anterior de Lebrun em http://ccsp.com.br/passaporte/?id=47754