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por Laís Prado

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Pôneis malditos, Riots e aprendendo a nadar

Por Rodrigo Lebrun (W+K)

26
agosto
2011



Faz tempo que eu não escrevo. Na verdade não tinha muito o que falar. Por mais que a gente tente, a vida de publicitário entra naquela rotina de não ter rotina: é acordar, ir pro trabalho, voltar pra casa e dormir, repete isso umas 30 vezes e voilá: uma folha a menos no calendário.


Agosto tá com cara de que vai ser diferente. Em 12 dias tanta coisa aconteceu que o mês deveria vir em capítulos (vai ver que é pra isso que as semanas servem).


Como vocês todos devem ter visto, Londres teve a sua semana de Brasil (aquele que a gente não gosta). É difícil comparar, mas eu diria que foi um mix do ataque do PCC com arrastão na praia (é, isso dá uma boa ideia).


A violência em Londres é um pouco diferente daquela que a galera sofre no Brasil, o que eles chamam de pobreza aqui é um negócio que seria o sonho de vida de muita gente aí.

Aqui as pessoas tem as necessidades básicas oferecidas pelo Estado e educação de graça (educação decente). Lembro que eu li uma entrevista na Wired onde a pessoa entrevistada definia o pobre inglês como o mais rico do mundo. Não é um exagero, os caras têm tudo, mas falta uma coisa: respeito. Infelizmente as coisas se parecem muito com o Brasil, ser negro e pobre aqui é barra e a cultura de gangue faz tudo ficar ainda mais difícil.

É meio difícil chegar à raiz do problema, falar que o o cara que morreu em Totteham foi o grande responsável é simplismo. Ele só foi o estopim. O lugar inteiro é uma panelinha de pressão. Ao contrário da terrinha onde existe uma miscigenação maior, aqui as comunidades são bem fechadas e em muitos casos segregadas. Segregação social assim como racial existe aqui também. Como ninguém dá muita trela pra eles, eles resolveram botar a boca no trombone e fazer a bagunça que fizeram. Um tremendo tiro no pé.


A motivação de muitos deles ainda é obscura, se é que existe. Na real foi uma grande baderna única e exclusivamente por isso, e pilhar e destruir lojas pareceu naquele momento o jeito mais fácil de se fazer uns trocados no eBay no dia seguinte, e foi exatamente o que aconteceu.

Eu moro perto de Peckham (se você não conhece Londres, digamos que é o Jardim Ângela deles - dadas as devidas proporções). Uma das regiões afetadas, na real, tinha prédio em chamas a 6 minutos de onde eu moro. Fiquei um pouco triste naquele dia. Aliás, quando eu comparo com o PCC é porque Londres  ficou meio sem saber o que fazer. Na dúvida, ficamos todos em casa. Nada funcionou, e se funcionou, fechou cedo. Lembro da Paulista vazia, como poderia esquecer? De repente, tudo de novo.


Apesar de todo o caos, algumas coisas bacanas aconteceram: durante uma das noites em que o bicho estava pegando, um grupo teve a estúpida ideia de ir para a Kingsland rd. quebrar umas lojinhas da comunidade turca. O lance é que os donos, a família dos donos e os amigos dos donos estavam preparados. E a casa caiu bonito pro lado dos saqueadores. A comunidade turca de Dalston virou um símbolo de resistência a esse estado de caos e pra retribuir o que eles fizeram, criou-se um evento no Facebook, incentivando a pessoas a comprar coisas dos Turcos daquela região. Sim, eu fui, e sim, eu comi Kebab naquele que eu acho que é o restaurante mais cafona que eu já fui na vida, mas a comida era excelente.


No dia seguinte dos distúrbios, muita gente foi às ruas pra ajudar a limpar. Sim, existe empresa de limpeza pública e sim eles estavam trabalhando. Mas tinha algo de ‘estou cuidado da cidade que eu amo’ que no Brasil acontece às veze com o Praia Limpa (podia acontecer mais em lugares como Sampa).


Em Peckham, os moradores resolveram cobrir os tapumes que protegiam as vidraças destruídas com post its, trazendo pequenas mensagens do por quê eles amam Peckham. Parece bobeira até você ver a coisa ao vivo.


Enfim, a minha história favorita é a do Barbeiro de 89 anos Aaron Biber, que infezlimente escolheu o lugar errado pra sua loja. O lugar foi virado de ponta cabeça. A foto dele desolado tentando limpar o que sobrou do lugar partiu o coração de muita gente (devo admitir que eu fiquei bem puto com isso). Mas um grupo de criativos da BBH daqui resolveu além de ficar puto fazer algo à respeito e montaram uma paginazinha bem simples pra recolher doações pra ajudar o Aaron. Bacaninha e mais do que isso £ 35.000 foram doadas. http://keepaaroncutting.blogspot.com/


É engraçado como isso me fez pensar num monte de coisa. Em maior ou menor grau, a gente perde mais tempo sofrendo com um problema do que tentando resolvê-lo, seja ele qual for. Existe uma dinâmica muito louca em procrastinar e parece que todos nós temos um talento inato pra empurrar as coisas com a barriga. Eu vi um artigo muito bom na New Yorker sobre isso (aqui).

É meio cliché dizer isso, mas a cada dia que passa eu vejo que o que nos define não é cargo, salário, esse ou aquele prêmio, mas sim a nossa atitude perante determinadas situações, principalmente as mais difíceis.

Acho que é por isso que existe tanta gente que apesar de pobre é muito mais feliz que gente rica (é um pouco culpa nossa quando eles perdem o foco). E é isso que faz com que pessoas sem oportunidades acabem criando, mesmo que com muito esforço, um jeito de chegar onde querem.


Onde eu quero chegar? Hoje somos resolvedores de problemas, mais do que pessoas que pensam filmes ou anúncios pra TV. Hoje a solução é mais importante que a mídia e a tendência é isso se intensificar. E se a gente usasse a cabeça de publicitário pra resolver nossos próprios problemas?


Eu tinha pensado em falar sobre os pôneis malditos (bem, claro) e como é aprender a nadar aos 32. Fica pra próxima.


Rodrigo Lebrun, criativo na Wieden+Kennedy de Londres.
Atualiza o blog Hi-fi Lo-fi quando dá tempo.
 
http://www.hifilofi.co.uk