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O Espaço é Seu

Tenha foco ou acabe igual ao Gigante

02.10.14


Há pouco mais de um ano, uma expressão, em especial, ganhava a cena do cotidiano brasileiro e pipocava da boca do filósofo de boteco para a boca do William Bonner. O gigante acordou! Estava ligada a uma série de manifestações populares que tomaram conta do país. O que começou em Porto Alegre, logo chegou a São Paulo e ao Rio. E pra bater na porta do Congresso, em Brasília, foi um pulo. Rapidamente o país estava tomado.



Durante dias, foram distribuídos gás lacrimogêneo em varejo e balas de borracha em atacado. Logo a classe política percebeu que a coisa, além de verde e amarela, estava preta. Trataram então de arregaçar as manguinhas. A toque de caixa, e com as calças e os saiotes nas mãos, começaram a agir. A água parecia ter batido na bunda dessa turma. De repente, toda aquela resistência à redução das tarifas do transporte público se esvaiu e as pernas foram abertas. O que, até aquele momento, não era possível se tornou viável. A primeira conquista “das ruas” foi alcançada.



Em seguida, uma série de medidas atabalhoadas foram tomadas. Planos foram traçados. Pactos foram assinados e até médicos de fora foram chamados. Parecia estranho, se tratando de Brasil, mas tudo começava a andar, num curto espaço de tempo. Sobrou até pra um certo deputado pagar o pato, servindo de bode expiatório e boi de piranha na estreia dessa nova fase do país. Afinal, entre tantas reivindicações estava a justiça. E ela deveria ser cumprida, custe o que custar. Os principais pedidos de mudança, que ganhavam força a cada esquina, eram: saúde, educação, transporte e o combate a corrupção. Além, é claro, o toptrend #nãovaitercopa, que corria turbinado pelas redes sociais. Logo outros pedidos, que vinham de todas as classes e gêneros, embarcaram na mesma toada. Eles iam do “Diga Não a PEC 37” ao “Fora Feliciano”. E mais um hit acabava de entrar nas paradas: “Você não me representa!”.



Foi ai que começaram a surgir os primeiros indícios de que esse fogo era de palha. Todos os anseios passaram a dividir o mesmo balaio e, de uma só vez, saúde, educação, transporte, segurança e direitos civis deveriam ter “Padrão Fifa”. Da chiadeira inicial dos 20 centavos, começaram a nascer pedidos e mais pedidos de mudança, como se uma gata prenhe resolvesse dar a luz, ali mesmo. O desfecho daquele fuzuê era previsível. Afinal, ele seguia a lógica do ditado “quem tudo quer, nada tem". A classe média, que estava cheia de “tudo isso que está aí” começou a se encher também de lotar a Paulista e as principais avenidas do país, e abriu espaço para alguns “baderneiros de plantão” que, depois de muitos bancos e ônibus quebrados, também se encheram daquilo.



Os dias passavam, a seleção levantava o caneco da Copa das Confederações - o que seria o prenúncio de um futuro 7×1 - e os escândalos políticos começavam a sair da toca. Víamos, a cada noticiário, a oportunidade histórica de começarmos a mudar o país escapar entre os nossos dedos. Deixamos, na ânsia da situação, que a falta de foco e de pautas claramente definidas fizessem mais uma vítima. O gigante, que antes acordara no meio da noite para tomar as ruas, agora estava novamente sonolento. E voltou dormir. 



Arnaldo Albergaria - redator  

arnaldoalbergaria@yahoo.com.br


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