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Coluna do Alphen

Só o amor inspira

02.10.19

Quem já teve ou costuma ter o masoquista prazer de seguir papagaios de tendências deve viver sob o efeito de um dolorido complexo de inferioridade. Porque, qualquer que seja o setor de atividade desses indivíduos, o seu objetivo não é inspirar, mas desesperar. Trata-se de um tipo de assédio moral que parte do pressuposto de que você já estava atrasado quando nasceu. Ou, na prática, de que existem, em algum lugar do planeta, pessoas como você, mas que fazem coisas mais incríveis e mais bonitas e ganham muito, mas muito mais dinheiro.

Os benchmarks catapultas, as histórias comoventes, os gráficos eretos e videocases lisérgicos são romances açucarados de tantos sapos virando príncipes.

A menos que você seja um daqueles galgos de corrida, excitado com um coelho mecânico doido, é pouco provável que você saia dessas evocações futuristas com uma vontade alucinante de mudar o mundo. Tampouco é provável que qualquer um dos iluminados autores daquelas lindas epopeias tenha seguido exemplos tão construídos.

O mais intrigante é que esse teatro constitui uma indústria que alimenta não só os profetas do admirável mundo novo – não somente pretensos centros de pesquisa e estudo e organizações especializadas em conferências, publicações e produções de conteúdo de todos os tipos –, mas nutre também um mal-estar coletivo.

À sombra dessa bolha idealizada, abortamos nossas vidas, sempre à espera de uma nova fonte de prazer em uma ordem redentora para uma existência apaziguada.

À margem desse jardim do Éden, em que todas as doenças são curadas e todas as carências, supridas, ocupamos nosso tempo projetando o futuro. Matamos o tempo presente com as quimeras de um futuro sempre futuro. Isso não significa, claro, que não seja curioso acompanhar os keynotes enlatados e, aqui e ali, tirar uma ideia que possa alimentar seus próprios keynotes pratos feitos. Não quer dizer também que decorar expressões, trocadilhos, neologismos e outros passe-partout não possa causar boas impressões em plateias menos informadas. É, muitas vezes, parte do jogo também ser óbvio, repetitivo e mediano. Ninguém suporta por muito tempo pessoas originais, luditas, excêntricas e estranhas, que preferem encontrar referências e metáforas no passado, na rua, na lua ou na mais “gauche” das experiências de vida. Isso assusta, incomoda ou ilumina demais nossa mediocridade. Mas a indústria da autoajuda futurista causa mais depressão do que redenção.

Da Vinci, quando pintou a Mona Lisa, não estava pintando a tela mais valiosa do mundo. Ele pintava simplesmente porque precisava pintar. A Mona Lisa não foi inspirada por tendência nenhuma, mas por uma moça ou um rapaz que o pintor amava.

Por Fernand Alphen, CoCEO da F.biz

Leia a coluna anterior do Alphen, aqui.

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