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Coluna do Alphen

O que o data 'driva'

01.02.20

As baleias, além de serem animais lindos e impressionantes, foram uma matéria-prima que moveu a economia norte-americana no século XIX. O óleo de baleia era um combustível valioso para a iluminação e a motorização, bem como fazia parte da composição de inúmeros produtos.

Por meio século, a pesca da baleia e o beneficiamento do óleo formaram a quinta maior indústria norte-americana. Fortunas enormes constituíram-se, muitas vezes anônimas, e financiaram o início da industrialização do país. Poucos sabem, mas os robber barons, que dão nome a formidáveis impérios e obras filantrópicas no mundo inteiro, devem seu sucesso, em grande parte, ao dinheiro da baleação.

Mas quem já esteve em mar aberto sabe que encontrar algo – por maior que seja – naquela imensidão não é fácil, muito menos considerando os recursos tecnológicos da época. As baleias não andam em bando nem têm predador natural e são as rainhas dos oceanos há séculos. Desenhar as rotas desses animais extraordinários era uma obsessão. Seguir as mais produtivas encurtaria viagens que muitas vezes duravam anos.

É tarefa meticulosa e disciplinada de todo capitão de navio registrar em seu diário de bordo cada um dos acontecimentos ao longo de sua jornada. Isso constitui o que chamavam “logs de navegação”. Muitos pesquisadores então começaram a desenhar, a partir desses preciosos registros, os famosos e indispensáveis mapas baleeiros. Milhões e milhões de dados coletados, cruzados e curados tinham a ambição de transformar a baleação em uma indústria data-driven.

Em 1859, Edwin Drake fez a primeira perfuração de solo em busca de outro óleo, o petróleo, nos Estados Unidos. 1859 era o auge do setor baleeiro. A substituição foi meteórica. Em 1865, a produção de óleo de baleia foi reduzida à metade; em 1870, à metade novamente – até desaparecer por completo na virada do século. A primeira indústria data-driven do planeta morreu para a sorte dos cetáceos e o azar do aquecimento global. Bancos de dados extraordinários viraram peças de museu.

A obsessão pela rápida – e cada vez mais rápida – coleta e análise de dados – e cada vez mais dados – dá conta daquilo que sabemos pesquisar. Mas ainda há todas as pesquisas que não sabemos fazer. Pior: há todas as realidades que nem sequer desconfiamos que existem para ser pesquisadas. E essas realidades são muito maiores do que aquelas nas quais mergulhamos as nossas sondas. Muito maiores do que os nossos cookies e tags histéricos são capazes de revelar.

Existem algumas típicas reações do consumidor quando ele descobre que está sendo escrutinado pelas empresas. Alguns ignoram (ou desconhecem) o fato de que suas vidas vêm sendo quantificadas em busca de interesses comerciais. Esses felizes beatos talvez tenham a profunda convicção de suas singularidades – portanto, qualquer tentativa sistemática de fisgá-los é tosca. Outros, opostamente, ficam incomodados ou revoltados, fecham-se, resistem, lutam contra o que chamam de invasão de privacidade. E, finalmente, há aqueles que gostam porque confiam na inteligência que está por trás da captação dos dados. Para estes, quanto mais dados fornecerem, melhores serão suas oportunidades. Quanto mais dados, mais acertadas serão as ofertas.

Essas três reações, no entanto, não levam em consideração o mais misterioso dos motores humanos: a memória, a mais insondável das ilhas de edição. Memória de gente é muito – mas muito – diferente da memória de máquina. A de máquina é lógica, indelével, organizada. Essa memória também é ingênua e literal. A de gente é uma bagunça. Tudo ali se combina livremente, com lógica própria. Cada memória humana é única. E, com essa memória que temos, os dados que fornecemos – com ou sem consentimento, com ou sem entusiasmo –, os quais são usados para interesses comerciais/empresariais, não têm tanta importância.

O insondável infinito é impossível de classificar, “clusterizar”. Sondar todas as histórias tecidas nas memórias da humanidade não é tarefa lógica de algoritmos.

Para tudo o que sabemos, dados. Para todo o imenso resto, mágica.

Por Fernand Alphen, coCEO da F.biz

Leia a coluna anterior do Alphen, aqui.

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