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É Tudo Verdade

Festival celebra 25 anos, feito que é ‘um milagre’

10.03.20

Em um cenário desafiador para a cultura, seja pela falta de investimentos no setor ou pela complexa relação com o governo federal, o festival É Tudo Verdade 2020 celebra o fato de atingir 25 edições com uma programação que abarca 83 títulos e que apresenta uma mostra competitiva recorde.

O 25º Festival Internacional de Documentários, como também é conhecido, ampliou as salas de exibição. Em São Paulo, onde a programação para o público começa no dia 26 de março, são seis. A sessão de abertura será na noite do dia 25, com a exibição de “Golpe de 53”. No Rio de Janeiro, que terá três salas para o festival, a abertura para convidados acontecerá no dia 30 com “A Cordilheira dos Sonhos”. O É Tudo Verdade se encerra no dia 05 de abril, nas duas cidades. Todas as sessões são gratuitas.

Criado e dirigido pelo crítico Amir Labaki, o evento tem patrocínio de Itaú, Sabesp e Spcine. Tem a parceria do Sesc-SP e o apoio do Itaú Cultural. Na apresentação da edição deste ano à imprensa, nesta terça-feira, 10, Labaki fez questão de destacar os patrocínios. “A mostra chegar aos 25 anos é um milagre”.

Dois anos atrás, o É Tudo Verdade sofreu o impacto de ter perdido patrocínios “em cima da hora e foi preciso reorganizar o evento. Para esta edição, o orçamento está maior em virtude do Itaú ter ampliado sua participação. “Temos parceiros que nos permitem fazer um dos maiores festivais do mundo”, declarou o diretor do evento.

Mas Labaki destacou que o setor vive hoje uma fase sombria. Ele afirmou que a cultura está abandonada no país e que, no Brasil, ela não é prioridade. “Sinto demais pelos eventos menores. A quem faz mostras, tenho a dizer que é preciso olhar em torno para encontrar parceiros. É preciso persistir”.

O fundador da mostra contou que quando o É Tudo Verdade surgiu não havia dinheiro. Fechar parcerias foi o que viabilizou a realização da primeira edição, em 1996, com 27 filmes e sem competição. Com o tempo, o evento se consolidou e ganhou prestígio, a ponto de ser o único festival que pré-qualifica quatro filmes para o Oscar.

No momento em que o audiovisual está sendo paralisado no Brasil, em que estão tentando fazer com que ele retroceda, nós não vamos retroceder. Temos um padrão de produção reconhecido internacionalmente”, salientou.

Labaki disse que durante o ano inteiro troca informações com outros produtores culturais e organizadores de festivais, maiores e menores. O objetivo é verificar o que é possível fazer. “Vivemos uma mudança radical no patrocínio à cultura”, observou, referindo-se à administração federal, que cortou as verbas para o setor que eram destinadas pela Petrobras, entre outras medidas. “É fundamental ter parceiros que acreditam que a cultura é uma marca da civilização”.

Em defesa da cultura

Participante de outras edições do É Tudo Verdade como cineasta, Laís Bodanzky, diretora-presidente da Spcine, ressaltou que, embora os orçamentos tenham diferentes ordens de grandeza em relação à política federal, os investimentos de estados e municípios são valiosos. Em especial no que se refere a festivais, que revelam talentos, movimentam a economia e geram vendas e projeções para o Oscar.

Não vejo municípios concordando com as decisões do governo federal. Há manutenção de apoios e patrocínios. A cidade de São Paulo tem essa consciência”, completou.

Diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron reforçou a importância de investimentos feitos por outras esferas para fomentar a cultura. E ponderou que talvez seja necessário defender para a população que o dinheiro destinado ao setor é tão essencial quanto o reservado para a saúde. De acordo com ele, a arte e a cultura podem melhorar a educação e mesmo a saúde mental.

Saron revelou que no dia 13 de abril o Itaú Cultural apresentará uma ampla pesquisa com dados sobre o setor. Foram analisados diversos números e estudos. O trabalho resultou num painel que se divide em 16 variáveis. Será possível mapear quantos empregos são gerados e quais empresas investem mais na área, por exemplo. “A cultura é o segundo setor que mais gera empregos no Brasil”, adiantou.

As novidades do É Tudo Verdade 2020

O criador do festival apresentou algumas novidades desta edição. Labaki lembrou que desde 1996 a produção documental não para de crescer, no Brasil e no mundo. Para celebrar os 25 anos, foram programadas seis atividades especiais, mesclando passado e presente.

Na programação serão exibidos filmes que já estiveram em outras edições. Há também recuperação de documentários do passado e homenagens. Na mostra competitiva brasileira, o número de filmes selecionados subiu. Normalmente são sete escolhidos. Desta vez, são dez em competição. É um recorde. Na internacional, são 12 candidatos.

No É Tudo Verdade 2020 haverá, pela primeira vez, uma votação popular. Ela ficará restrita aos filmes latino-americanos. Séries também entram no festival. “Série documental está em expansão no mundo”, afirmou o diretor do evento. Uma das produção é um trabalho antigo: “A Herança da Coruja” (França, 1989), que aborda a cultura da Grécia clássica, colocando em evidência 13 palavras, como democracia e misoginia. “Parece que são palavras que precisam ser explicadas hoje”, acrescentou Labaki.

Outra série que entra no festival é “Women Make Film” (Reino Unido, 2019), que destaca centenas de diretoras de diferentes países em cinco episódios que, juntos, totalizam 14 horas de conteúdo.

No Itaú Cultural haverá ainda a 17ª Conferência Internacional do Documentário (entre 28 e 29 de março), com debates e masterclass. Em seu site serão transmitidos cinco títulos. No Sesc-SP haverá o seminário É Tudo Verdade – 25. E no Spcine Play, plataforma de streaming da Spcine, serão exibidos dez documentários dirigidos por mulheres que marcaram a história do festival.

Os filmes que estão nas mostras competitivas e mais detalhes da programação podem ser conferidos aqui.

Lena Castellón

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