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O Espaço é Seu

Tempos Sombrios (Rynaldo Gondim)

27.09.19

Mais ou menos na época do Velho Testamento, Eratóstenes leu em um pergaminho da Biblioteca de Alexandria uma curiosidade: a sombra de uma coluna na cidade de Cirene encurtava com a aproximação do meio-dia. E, precisamente ao meio-dia, a sombra desaparecia por completo.

Intrigado, Eratóstenes se debruçou sobre o assunto e descobriu que observando uma coluna idêntica à de Cirene na cidade de Alexandria, a 800 km de distância, no mesmo horário, as sombras tinham comportamentos diferentes. Ao meio-dia, em Cirene, não havia sombra alguma, enquanto que em Alexandria a coluna possuía uma sombra considerável.

Usando o Teorema de Pitágoras (570 a.C. – 495 a.C), a partir da distância entre as duas cidades e o ângulo de curvatura que a discrepância entre as sombras sugeria, Eratóstenes chegou a circunferência da Terra: 40 mil quilômetros.

(Curiosidade: Pitágoras desenvolveu um Teorema antes de Cristo nascer e muitos de nós, mais de dois mil anos depois, têm dificuldade de simplesmente aplicar a fórmula).

Em 2019, mesmo diante de milhões de evidências científicas, além de filmagens do nosso planeta captadas do espaço e disponibilizadas em tempo real, há um número considerável de pessoas acreditando que a Terra é plana. Entende o tamanho do retrocesso? É como se a Terra girasse no sentido contrário nos arremessando de volta à primeira sombra observada na cidade de Alexandria. São tempos verdadeiramente sombrios.

Enquanto no mundo de verdade testemunhamos esse movimento surreal de pessoas tentando negar a ciência - por cinismo ou mesmo estupidez -  no mundo da publicidade vivemos esse problema às avessas: há quem tente transformar em ciência - por cinismo ou mesmo estupidez -  uma profissão que exige criatividade e intuição.

Criatividade e intuição não se opõem à responsabilidade. E são características intrínsecas ao nosso ofício.

Mas, desde que o mundo é mundo, espertos criam regras e incautos seguem à risca. Seguir regras é muito tentador. Porque decorar só exige um pouco de memória. E ser detentor do conhecimento de um grande número de regras faz uma pessoa com poucos recursos se sentir importante. Assim, transformar publicidade em ciência permite que pessoas com pouco ou nenhum talento tenham relevância.

Evidente que Google, Facebook ou qualquer outra mídia possuem dados importantes sobre o que costuma funcionar melhor em suas plataformas. Ignorar suas recomendações é ingenuidade ou teimosia. Mas considerar as recomendações como regras intransponíveis é pouco inteligente.  Por uma razão simples: os dados ignoram a qualidade da mensagem.

Fabio Fernandes, um dos mais brilhantes profissionais da publicidade brasileira, ao receber a mais que justa homenagem do Clube de Criação no último Festival, disse algo semelhante a isso: "Se está todo mundo dizendo pra você filmar na vertical, talvez você deva filmar na horizontal". 

Não duvido que apareça um ou outro criticando o discurso. Porque ao estimular os publicitários a exercerem permanentemente seu olhar crítico e não esquecerem o principio básico da boa publicidade, que é a diferenciação, Fabio ameaçou a única virtude de muitos profissionais: conhecer regras.

Lembrando que um dos filmes com o maior índice de engajamento da história foi feito pela Nike. Na horizontal. Com 3 minutos.

Voltando aos tempos de Eratóstenes, você deve escolher o que quer pra você: ser o louco que mede as sombras ou o sensato que prefere acreditar que as sombras são diferentes porque essa é a regra.

Ser sensato é mais fácil. Mas quem descobre algo que permanece relevante por milhares de anos, geralmente, é um dos malucos.

Rynaldo Gondim
CCO da Heads
Rynaldo@heads.com.br

 

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