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Palha de Aço na Antena

No que ou em quem você está extremamente ligado, no momento? (Facundo: Viva o PSP)

19.03.07

iPod, pra que te quero? Viva o PSP!


"Tudo bem que é um tremendo lugar-comum escrever isso, mas nada mais odioso do que o comum lugar, a vulgaridade da unanimidade, como poderia ter dito Nelson Rodrigues.

E uma dessas unanimidades é o iPod. Poucas vezes a grande mídia incensou tanto um produto, que freqüentou tantas e mais diversas capas de revista, quanto o odioso player da Apple – esta empresa que sintetiza o contemporâneo “american way of life”, lugar ocupado décadas atrás pela Coca-Cola, Levi´s, Mc Donald´s e Microsoft, para citar apenas algumas marcas iconográficas.

A Apple sintetiza hoje em dia esse novo ideário do americano médio e de sua gerência: descartável como as primeiras gerações de iPods, minimalista como os Cubes, asséptico como uma UTI, e tão revolucionário quanto uma reunião de condôminos para discutir a impermeabilização da garagem.

O famigerado iPod transformou-se em um fenômeno tal que, não raras vezes, o produto que é comprado por algumas centenas de dólares é usado para vender produtos de dezenas de milhares de dólares, como carros – peças publicitárias são estampadas no player para vender produtos, como se na compatibilidade com o produto da Apple o consumidor encontrasse razão suficiente para investir na compra de um carro. Sinal de que os gerentes de marketing, pena, ainda acreditam no hype.

Falo de cátedra: meus suados dólares já fizeram as ações da Apple saltar 3 vezes consecutivas. Meu iPod se encontra na terceira encarnação, e francamente fiz um juramento solene que nunca mais seria enrolado, mão sobre um velho testamento (em homenagem à maçã mordiscada da Apple que, mui espertamente, emprestou seu significado simbólico da primeira culpa cristã que temos notícia, a do fruto proibido do conhecimento).

E não são poucas as razões para me sentir ludibriado: meu primeiro iPod simplesmente morreu, sem aviso prévio, levando consigo meus preciosos arquivos.

As razões para odiar um iPod são muitas, e vou me ater apenas a algumas: meu nano, apesar de cuidar dele como se fosse um cristal bacarat, parece que foi tratado à palha de aço. Alguns arquivos indexados no iTunes simplesmente somem quando os transfiro para o player (até hoje tento encontrar o álbum OK Computer que o itunes jura estar no meu player, mas não consigo encontrá-lo nem que revire o click wheel até o dia do juízo final).

Outras razões: até recentemente não existia uma ridícula ferramenta de busca no firmware do iPod; a fragilidade de sua bateria; o caos da sua navegação “intuitiva”; o compromisso firmado com a RIIA (Recording Industry Association of America), transferido na íntegra para os usuários do produto.

Enfim, poderia desfiar um rosário de razões para que ninguém volte a comprar um iPod enquanto a Apple não der um jeito em seu player, mas prefiro deixar a amargura de lado e apontar para uma verdadeira revolução que acontece, à revelia do fabricante, talvez, mas que se mostra muito mais interessante do que o iPod: o PSP.

O PSP, ou Playstation Portable, foi lançado há pouco mais de dois anos, pela Sony, e quase ninguém, na época de seu lançamento, conseguiu antever as possibilidades dessa estrondosa máquina.

Por quase metade do que se paga por um iPod vídeo, você pode comprar um player multimídia, com uma tela duas vezes maior do que a de um iPod, que conta com um player de música bastante intuitivo, um videogame do tipo Playstation 2, com jogos capazes de liberar litros de endorfina em qualquer cérebro e um computador capaz de navegar através de sites em flash por redes Wi-Fi, cada vez mais comuns.

Desculpe-me, mas melhor relação custo benefício você não encontrará por aí.

Melhor ainda – e aí está a tal da revolução, pobre palavra, tão gasta nos dias de hoje – é que o firmware do PSP já foi triturado por hackers, que lançaram homebrews – programas caseiros, criados por programadores por amor ao console e que não são oficializados pela fabricante do aparelho - os mais diversos.

Com um PSP hackeado, você consegue jogar qualquer jogo lançado para PSP e até jogos ainda não imaginados pelo fabricante, uma vez que existe uma pulsante horda de adolescentes que cria a toque de caixa emuladores de consoles antigos para o PSP (emuladores são programas capazes de simular outros programas – através de um emulador, é possível jogar aquele saudoso River Raid em seu PSP, apesar da idéia parecer absurda em um primeiro momento).

Mas não se trata apenas de jogos: a lista de  homebrews interessantes para PSP é quase infindável, uma vez que praticamente todos os dias aparece um programa novo para o console da Sony.

Ou seja, o PSP há muito deixou de ser um videogame para passar a ser uma “máquina que simula máquinas”, algo como o primeiro computador realmente portátil, de sistema aberto a pancadas de fórceps, e que possibilita dezenas de aplicações divertidíssimas.

Atenho-me apenas a algumas: se você quer escutar música e tem uma rede wi-fi por perto, sem problemas: apesar de não contar com captação de sinal de rádio, existem homebrews que permitem a conexão com qualquer das milhares de rádios disponíveis na rede.

Dá pra usar o PSP como uma calculadora, despertador, leitor de PDFs, leitor de ebooks e graphic novels, agenda eletrônica tipo PDA (com função de edição de texto, calendário, relógio etc), editores gráficos, programas que permitem a transferência de arquivos de um PSP para o outro, sem que os arquivos se auto-destruam depois de alguns dias, como o Zune, player da Microsoft,  programas de edição de áudio, controladores de programas de áudio, sintetizadores, controle remoto...

A lista, como dito, é infindável, e não são poucos os DJs que conheci que controlavam suas apresentações ao vivo, através de um computador e um PSP, ou mesmo produziam música eletrônica no player da Sony.

Melhor: quando em viagem você não precisa mais passar pela incômoda síndrome de abstinência de web. Basta ligar a rede wi-fi de seu PSP, encontrar algum sinal aberto por aí e deixar de lado aquela angustiante luta para encontrar um cyber café em terras estrangeiras.

Fiz uma experiência: desci a Augusta a pé e fui capaz de navegar a 120 por hora, saltando de conexão em conexão.

Não é à toa que o videogame da Sony virou artigo de primeira necessidade entre os DJs globetrotters que conheci e causa frisson em qualquer adolescente.

O iPod é para yuppies em crise de meia-idade e posers que adoram ostentar aqueles constrangedores fones brancos.

Pra variar, a revolução vem do velho oeste (e, por favor, por velho oeste não entenda a Califórnia!) e, mais uma vez, não está sendo televisionada, mas formiga em torrents, internet adentro.

Vive la revolucíon!

Por Facundo Guerra, engenheiro que um dia pensou ser jornalista, pretende ser cientista político e 'está' sócio do clube Vegas, de São Paulo.

Comentários

rafael - é, espere pelo PSP2...mais fino e touch screen....dps a gnt conversa. tr@yahoo.com



 


 

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