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Ted Sarandos: apetite por histórias

O caminho que a Netflix fez pelo Brasil

23.04.19

Nenhum dia é igual a outro. É o que diz Ted Sarandos, chief content officer da Netflix, quando se trata de sua rotina. Responsável desde 2000 pela área de aquisição de conteúdo da empresa e um dos executivos que liderou a estratégia de investir em produções originais, caminho adotado por outros players do mercado de streaming, ele pode estar em um dos 15 escritórios da companhia no mundo, analisando projetos ou conversando com criadores. “Temos pessoas trabalhando no mundo inteiro, desenvolvendo programas, séries, filmes. Às vezes discuto ideias simples ou filmes desconhecidos”, contou em um evento realizado na FAAP, em São Paulo, dois dias antes do painel “Brasil no cenário global” na Rio2C, no Rio de Janeiro, no qual discutirá o tema (nesta quarta-feira, 24) com o ator, diretor e produtor Wagner Moura.


No encontro na capital paulista, Sarandos se dirigiu principalmente a estudantes que enveredam pelo audiovisual e entretenimento e falou de projetos feitos no Brasil ou com brasileiros, caso do filme em que Moura interpreta o diplomata Sérgio Vieira de Mello, morto em um ataque terrorista em 2003 em Bagdá. Previsto para ser lançado neste ano, o longa tem Moura como um dos produtores e é dirigido por Greg Barker, vencedor do Emmy de documentário de 2013 por Manhunt: The inside story of the hunt for Bin Landen e diretor do documentário Sergio (2009), também sobre o diplomata, para a HBO.


Os projetos brasileiros recebem boa atenção da Netflix. Aliás, o mercado brasileiro. Em 2011, a Netflix apostou na expansão para a América Latina e três anos depois abriu seu escritório em São Paulo. “Foi um negócio incomum. Em geral, as empresas (americanas) vão primeiro para a Europa e depois para a América Latina. Fizemos o contrário. E pensamos no Brasil, que gosta muito de filmes, que tem público jovem, com habilidade para mexer na internet”, afirmou o executivo.


Nessa jornada havia um desafio que demandaria certa ousadia: produzir conteúdo local. “O Brasil tem praticamente uma empresa que acaba sendo guardiã do que o público vê na TV. Mas vimos nisso uma oportunidade de atingir um público não atendido por essa emissora. E vimos que o brasileiro tem amor por originais”, disse Sarandos. E, assim, em 2016, o serviço de streaming disponibilizou na plataforma a série nacional 3%. “Ficamos muito animados com 3%. Foi um sucesso no Brasil, mas foi no mundo todo”. No ano de seu lançamento, foi a série em língua não-inglesa mais assistida nos EUA.


Outra característica do mercado brasileiro é que o usuário daqui acompanha intensamente a produção internacional, como explicou Sarandos a sua entrevistadora especial no evento, Chris Sanagustin, diretora de conteúdo internacional original da Netflix Brasil. “No mundo, todos gostam de conteúdo local. No Brasil, há apetite pelas histórias do mundo inteiro. É incrível. Por aqui, (a série) La Casa de Papel fez tanto sucesso como se fosse um programa local”, exemplificou.


Projetos


Sarandos comentou que a Netflix Brasil está apenas no começo em sua estratégia de produção de conteúdo local. “Temos novas temporadas de 3%, de O Mecanismo, de Samantha, temos uma adaptação de uma série mexicana”, disse. Fora as demais que já estão na base do serviço, como Coisa Mais Linda que estreou há cerca de um mês (leia aqui e aqui o que publicamos sobre lançamentos recentes e o que vem por aí).


Quando perguntado o que busca em um projeto de conteúdo, Sarandos respondeu que não há receita, exceto que seja uma história bem contada. “Tem de ser um mundo ao qual as pessoas queiram dedicar seu tempo. Tem de ser uma história humana, que pode ser de um futuro distópico até contos reais”, completou. E o que determina o cancelamento de um programa? Ele esclareceu que a empresa quer criar programas, mas que existem custos a serem considerados. “Queremos que as pessoas paguem por aquilo que consideram que vale a pena. Podemos trabalhar com audiências menores, mas elas não podem ser muito pequenas”. A série Sense8 é um exemplo de um projeto bom, mas que precisava de mais audiência. Quando o público ficou sabendo que ela não teria continuidade, a companhia recebeu diversas manifestações de carinho pelo programa, contou Sarandos. Mas a decisão já estava tomada. Resoluções assim são definidas com boa antecedência.


Também ganham atenção propostas que reflitam a diversidade local. “Isso é importante para um país como o Brasil, em que mais da metade da população é negra. Queremos também mais mulheres contando histórias ou dirigindo.” Isso vale inclusive para as equipes de profissionais da empresa. Quanto mais diferenciados forem os perfis, mais chances de encontrar histórias boas pelo mundo. Outro ponto a ser observado: as futuras produções precisam ter uma vocação internacional, mesmo sendo brasileiras. Isso porque é essencial atingir outros mercados. A Netflix tem 148 milhões de assinantes globalmente.


Filmes


Um dos projetos que o Brasil prepara para o mundo é o novo filme de Fernando Meirelles. The Pope deverá ser lançado no segundo semestre, entre o final de outubro e o início de dezembro, conforme o diretor brasileiro revelou ao Clubelonline (leia aqui as análises de Meirelles sobre streaming, festivais e cinema, em reportagem na qual falou de Roma, produção da Netflix dirigida por Alfonso Cuarón).


Sarandos afirmou que a empresa quer mais filmes locais, tendo em vista que há diversos talentos no país, como Meirelles e José Padilha (de quem admira muito Tropa de Elite). “É muito difícil licenciar filmes no Brasil. Há players que travam a disponibilidade (de títulos). É bem difícil em comparação a outros países. Mas encaramos desafios”, disse.


TV, concorrência, algoritmos


O chief content officer da Netflix esclareceu algumas questões dos estudantes. Entre elas como foi mudar o modo de se consumir TV, com maratonas de séries (“Isso aconteceu quase como acidente. Antes de House of Cards, subíamos um episódio por semana. House of Cards foi a primeira série a ter exibição contínua, sem comerciais, para ser vista de uma vez. Sem essas interrupções, ganhou mais 20 minutos de história. Foi uma das mudanças mais fundamentais da TV”) e se há aplicações de TV demais, o que poderia tornar pesada as contas de uma família (“Não acho. Queremos dar mais opções. Ninguém reclama de chegar em uma cidade e se deparar com muitos restaurantes. Queremos que a TV e os filmes alcancem uma paridade com a arte. Você nunca será capaz de ver todos os quadros que existem, nem de ouvir todas as músicas lançadas”).


A concorrência foi mais um tema de interesse. O mercado global se tornará ainda mais competitivo com a chegada de players como Disney e com o crescimento de outros serviços, caso de Amazon, Hulu e Apple, além das plataformas VOD de empresas de mídia que vieram do mundo tradicional. “Concorrência é a melhor coisa para o mundo. Todos fazem o seu melhor trabalho (para conquistar usuários). Nós estamos estamos concentrados no público: queremos ter o melhor preço, o melhor funcionamento no dispositivo”, comentou Sarandos, para quem a TV a cabo é boa para eventos ao vivo.


Ele observou que ainda há campos para serem explorados no Brasil. Nos EUA, por exemplo, existem serviços dedicados para clássicos do cinema, campo em que a Netflix não tem tanta oferta. “Existe uma desagregação de direitos. Tem filmes feitos antes dos anos 1920 mas que não foram liberados no digital”, contou, fato que dificulta ter títulos consagrados como as obras de Akira Kurosawa na grade. “A distribuição de clássicos tem mais problemas, mas queremos ter modelo para filmes assim. Nos EUA você pode alugar (em outros serviços) esses títulos por US$ 1 ou US$ 2”.


Perguntado sobre o peso dos algoritmos, Sarandos desfez uma “lenda” que se formou em torno da criação de produções originais pela Netflix. Ao menos foi o que quis demonstrar o executivo. Segundo ele, dados não são utilizados para a geração de conteúdos. Em suas palavras, algoritmos não são usados para influenciar a criação ou determinar as narrativas. Os dados ajudam na visualização do que o consumidor busca no serviço. E também auxiliariam a mostrar o potencial que uma nova produção pode ter no mercado. Sarandos diz que há intuição dos criadores no sentido de encontrar um caminho narrativo para a história ter sucesso.


 


Lena Castellón

Ted Sarandos: apetite por histórias

O caminho que a Netflix fez pelo Brasil

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