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Um Brasileiro em Tóquio

Os dias seguintes (Erick Rosa)

26.03.20

Os dias seguintes.

O algoritmo do YouTube me pegou no contrapé esses dias. Mas tipo rasteira, pisão na canela, entrada do Marcio Nunes no joelho do Zico naquele fatídico jogo contra o Bangu. Tudo ao mesmo tempo.

Não sei o que eu vinha assistindo que fez com o que o algoritmo pensasse: "quer saber, vou entortar a cabeça desse cara hoje." Bom, num certo dia, entre um clipe com o monólogo do Stephen Colbert, uma receita de hambúrguer e o trailer do último 007, estava lá: Jornal Nacional de 1989. A edição inteira, com comerciais, chamadas para a novela das 8, Cid Moreira inteirão, Celso Freitas garoto. A vinheta musical do Jornal Nacional Dolby Stereo Surround.

Apertei play. Plano Verão, Inflação recorde, caminhões roubados no Uruguai, um assassinato mal resolvido. Servi uma segunda taça gorda de vinho (a primeira já tinha tomado como quem toma Gatorade na subida final da maratona ao assistir as notícias de hoje). Fiquei pensando como naquela noite de 1989 pré-internet, as pessoas ao redor das TVs na sala, engoliam a seco a cada nova notícia desferida pelo querido Cid.

Gostei. Ou melhor, já estava naquele vortex esquisito do tempo — e pensei, vamos continuar aqui. Apertei numa edição de 1994. Cai na segunda-feira seguinte da morte do Ayrton Senna. Chorei novamente como se fosse o mesmo menino na manhã que tudo aconteceu. Limpa lágrima, mais vinho e mais Jornal Nacional. Fui de propósito atrás da edição do dia seguinte da conquista do tetra na Copa dos EUA. Não adiantei o cursor. Assisti tudo como se estivesse revivendo aquilo. Sem pular os comerciais (taí um exercício à parte, ver os comerciais do intervalo -- que na época equivalia a toda a internet logada no mesmo site -- ao mesmo tempo de audiência).

Quando o Cid Moreira cortou para uma entrevista externa com um torcedor nas ruas, chorei novamente. Dessa vez de alegria. Me lembrei onde assisti aquilo tudo pela primeira vez. Meu pai emocionado. A casa da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro -- tremendo.

Jornal Nacional de 1990. Fui agora atrás do Plano Collor. Masoquismo intencional. Escuto até hoje o efeito que aquele anúncio teve no país. Infartos, empresas fechando, uísques duplos sem gelo. Para equilibrar, logo em seguida fui atrás da edição do Jornal Nacional que falava da vitória da abertura na Copa da Espanha de 82. A edição que falava do jogo sobre a então União Soviética -- com aquele golaço do Eder. Não assisti a edição após o Jogo da Itália. Apenas a edição após o jogo da Rússia. Aquele gol do Eder contra a Rússia, para mim, é uma das coisas mais lindas que já vi. Quando aquela bola bateu o imbatível goleiro Dassayev, eu, do alto dos meus 7 anos, pensei: caramba, nada é impossível!

Alcanço a garrafa de vinho. Mais uma taça.

Li em algum lugar que esses tempos que vivemos, a regra do aeroporto está valendo. Sabe? Quando você está fazendo uma escala em Frankfurt às 6 da manhã e vê numa mesa um grupo de amigos enxugando canecas das grandes de cerveja? Aí você perdoa – "Ah, provavelmente eles estão com um fuso em que faz sentido tanta cerveja a essa hora." Bom, mais uma taça, mais uma edição do Jornal Nacional. Nesse momento eu já não estava em 2020 há umas três horas e três taças. Fui atrás de mais algumas edições históricas. Morte de Odete Roittman, Morte de Tancredo, eleição do Lula, Flamengo e Liverpool 1981, não 2019, 11 de setembro. Fiz uma viagem pela história. E, como estou hoje em Tóquio, fui atrás do desastre de Fukushima para ver como o brasileiro assistiu aquilo tudo. Fui atrás de tudo. E sempre tentando assistir sem avançar, sem spoilers.

Sofria, sorria, chorava e servia mais uma taça.

Quando eram quase duas da manhã, parei. Dei tchau para o Cid Moreira e o Celso Freitas. Dentro de mim, pensei: que época, que época para se estar vivo, os anos 80, os anos 90. Antes da internet. Antes do celular. Antes das redes sociais. Antes dos grupos de mensagens. Como era mais simples. Quem perdeu tudo com o Plano Collor que não me escute. Mas como era mais simples. Oito e tal, a vinheta do Jornal Nacional tocava ao fundo, quem quisesse saber sobre o mundo, corria para a sala. E pronto. Na minha casa, tudo parava. Eu escuto a voz do Cid e vejo meu pai teletransportar para o meu lado.

O mundo ardia mais lentamente. E sorria com hora marcada.

Fechei o laptop. Por alguns minutos pensei e me comportei como se estivesse em 1990. Olhei para a ainda metade cheia taça de vinho e sorri. Não porque as coisas estão boas. Não porque o futuro parece promissor. Mas porque era a minha quarta taça de vinho.

Algumas pessoas me escrevem perguntando como está o Japão no meio dessa crise sem precedentes. Eu tento ser otimista e dizer que as coisas melhoraram.

Digo que teve um único dia de pânico nos supermercados mas depois tudo voltou ao quase normal. Digo que antes mesmo da crise, grande parte da cidade já andava com máscaras para não transmitir a mais simples gripe que tinham. Digo que os países que nos cercam, Coreia do Sul e China principalmente — tomaram decisões drásticas desde o princípio. Digo que esse país parece ter uma incrível calma na face do pânico e caos. Afinal, desde que eu cheguei já vi terremotos, tufões e enchentes destruírem cidades. E no dia seguinte começa tudo de novo. Aqui teve Fukushima, Tsunami, sem falar, é claro, Hiroshima e Nagasaki. Digo que é um país com a população mais idosa do mundo — e que os mais jovens tratam e cuidam deles como se fossem (e são) não apenas passado, mas também o presente e futuro da nação.

Digo que existe um otimismo.

Digo que no dia em que o primeiro ministro anunciou que as crianças deveriam ficar em casa por um mês, o país inteiro seguiu à risca. Digo que é um sinal de que o futuro do mundo tem alguma esperança. Digo que fui recentemente ao meu restaurante favorito e que o sushiman me disse que voltou a ir ao mercado de peixes. Digo que as pessoas voltaram a sorrir. Digo que sou do grupo dos otimistas. Pois nessas horas, além de todas as regras, fatos e dados, otimismo é, sim, importante.

E aí, pauso e digo -- que espero um dia -- em uns dez, vinte anos, ser mais uma vez, pego pelo algoritmo do YouTube. E naquela noite no futuro, também munido de uma garrafa de vinho -- ser convidado a assistir uma edição de um noticiário de 2020. A edição do dia seguinte -- quando reabriram todas as fronteiras. Quando o mundo entrou num acordo que o perigo acabou. Aí, eu vou apertar o play. E aquela edição vai terminar com uma cena de desconhecidos se abraçando em todas as principais ruas e avenidas do mundo. Na quinta avenida em Manhattan, em Copacabana no Rio, Shibuya em Tóquio, na Praça Luis de Camões em Lisboa, no mundo todo.

E a última cena daquela edição é na Itália. Duas pessoas se abraçando em Milão. Sem se largar. Com os letreiros do jornal subindo sobre essa cena. Sem trilha. Uma cena que o mundo inteiro assistiu ao mesmo tempo — sem piscar. Apenas para largar aquela lágrima farta. Como nos tempos pré-internet, pré-grupos, pré-notificações.

E nesse dia, mais uma vez, vou me dar o luxo de abraçar uma garrafa de vinho. Como se estivesse em um aeroporto pela manhã — protegido pelo fuso (importante: aeroporto aberto para a entrada e saída de qualquer pessoa e de qualquer nacionalidade ) em qualquer lugar do mundo. E vou chorar. Copiosamente. Pelas pessoas que conseguiram passar por aquele ano de 2020. E pelas pessoas que não passaram. Porque se tem uma coisa que contagia mais do que tudo é, por mais piegas que soe, o amor pelo próximo.

Quando me perguntam como está a vida no Japão, eu digo: "Eu acho que está melhor do que antes." E "melhor" é enorme.

Erick Rosa, chief creative officer do Publicis Group, em Tóquio

Leia coluna anterior de Rosa, aqui.

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