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Elas Perguntam, Elas Respondem

Day Rodrigues (cineasta) e Mariana Albuquerque (MediaMonks)

11.03.21

Clubeonline abriu um espaço para a troca de experiências, ideias, dúvidas e reflexões sobre a mulher no mercado de comunicação.

Para isso, montamos duplas formadas por profissionais que nunca trabalharam juntas antes. A experiência visa mostrar o que evoluímos e discutir para onde vamos. Afinal, se tomarmos como base que a mulher “chegou lá”, o que vem a seguir?

O mais importante nesta proposta é a troca entre as profissionais convidadas. Para isso, elas tiveram liberdade de estabelecer três perguntas para sua “dupla”. E responderam às três encaminhadas por ela.

A dupla que faz e responde perguntas agora é formada por Day Rodrigues, cineasta, escritora e documentarista, e Mariana Albuquerque, diretora de criação global da MediaMonks+Circus.

A série foi inaugurada no Dia Internacional da Mulher com Ilca Sierra (Via Varejo) e Lica Bueno (Suno) – leia aqui como foi a troca.

Em seguida, foi a vez de Gláucia Montanha (Convert) e Nathalia Cruz (Porta dos Fundos) - confira aqui.

A terceira dupla foi formada por Débora Nitta (Facebook para América Latina) e Thamara Pinheiro (Soko) - veja aqui.

Amanhã é a vez da última dupla na série.

DAY RODRIGUES

Desde 2015, Day realiza e faz parte de projetos sobre diversidade versus lugar de poder. Ela desenvolve, em suas propostas estéticas, a narrativa de personagens sem estereótipos caricatos e com o alcance de pesquisas e roteiros críticos, abrangentes e antirracistas, sem deixar de dialogar com a audiência.

Day fez parte da equipe de diretores da série “Quebrando o Tabu” (Spray Filmes), entre 2017 e 2019, para o canal GNT e para o Globoplay. Foi premiada no New York Festivals TV e Films (USA), em abril de 2019. O episódio “Racismo e resistência”, que dirigiu, foi premiado no Mipcom Diversify TV Excellence Awards de 2019, em Cannes. Em 2020, a segunda temporada foi premiada como melhor série de documentário da TV paga no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Os principais documentários independentes de Day são "Ouro Verde - a roda de samba do Marapé" (2012), "Mulheres Negras: Projetos de Mundo" (2016), premiado no XXI Cine PE - Festival Audiovisual, nas categorias júri popular e direção; e o mais recente: "Geni Guimarães" (2020), filme/homenagem da Balada Literária (SP), que contou com a participação da escritora Conceição Evaristo.

As questões enviadas por Mariana Albuquerque e respondidas por Day Rodrigues são as seguintes:

Mariana - Primeiramente, muito prazer. Seu trabalho é muito inspirador. Você é uma artista multidisciplinar que encontrou voz no audiovisual como diretora. Foi difícil encontrar espaço em um mercado onde não se vê (ou via) praticamente nenhuma mulher negra? Em que momento “realizou” que você podia seguir um caminho que poucas trilharam?

DAY - Costumo dizer por aí: ‘ocupo’ a cadeira da diretora. Ser uma realizadora no audiovisual tem a ver com três processos distintos. O primeiro é sobre os meus caminhos desde a formação em Filosofia, com uma bagagem crítica para pensar projetos e linguagens artísticas; depois, pelo fato de ter encontrado nos movimentos de mulheres negras a possibilidade de construir uma autoimagem positiva e política e, por último, posicionar-me em espaços de gestão foi possível graças aos processos independentes. Honestamente, apesar dos prêmios, editais e projetos para a TV, eu ainda não consigo mensurar se os meus trabalhos para uma grande audiência são temporários ou não, pois, sem mudança ética e política nas filosofias das empresas, não tenho garantias de continuidade, num prazo longo.

Mariana - Como foi o começo da sua carreira como diretora? Alguém abriu portas para você? Como foi furar a bolha branca e masculina, e quais suas maiores dificuldades?

DAY - O meu primeiro trabalho como diretora foi o filme "Mulheres Negras - Projetos de Mundo” (2016), que partiu de uma ideia de falar sobre os lugares hegemônicos, a partir da voz de mulheres negras, de diferentes contextos e saberes. Logo depois, comecei a receber uma série de convites e propostas, principalmente para tratar de temas sobre as desigualdades sociais. Ou seja, há um limite nos propósitos e projetos destinados ao que se espera da minha atuação. Hoje, deseja-se muito o selo "antirracista", como se profissionais negrxs precisassem sempre responder por uma demanda de conteúdos específicos, não pela pluralidade das vidas negras e não brancas, não pelas garantias dos enfrentamentos éticos ao que os privilégios étnico-raciais significam para xs brasileirxs. Ainda assim, pude fazer alguns trabalhos bacanas e conhecer pessoas justas com a relação trabalho e colaboração. E ninguém abriu uma porta. Me parece que fui chegando com a cara e a coragem (risos). A bolha é racista e tem uma estrutura hierárquica bastante arrojada, o que me deixa em desvantagem, inclusive, com mulheres brancas.

Mariana – É muito lindo ver a autenticidade do seu trabalho e o espaço que você dá para outras vozes femininas negras. Inclusive na série “Quebrando o Tabu” que você dirigiu, se fala da importância do sistema de cotas. Quais as vantagens, no seu ponto de vista, de implementar um sistema equivalente ao de cotas no nosso mercado?

DAY Agradeço o olhar cuidadoso sobre meus trabalhos. Eu penso as políticas afirmativas como uma conquista dos movimentos sociais. Infelizmente, seu real objetivo é totalmente deturpado, como se fosse desapropriar os direitos de alguém. Falta consciência racial na sociedade brasileira, falta senso de humanidade com a história de opressões e desigualdades também. Daí, se as empresas resolverem aderir para se espelhar em tais mecanismos, já sabemos: teremos um mercado consumidor plural e rentável. Para mim, tal debate é urgente porque eu vivo num país incapaz de reconhecer privilégios e oportunidades marcadas pela origem branca das pessoas. Precisamos pensar no futuro com a juventude negra viva. Portanto, algumas cotas são necessárias, sim, acompanhadas de outros investimentos, valores e atuações contra a discriminação. Força para nós :D




MARIANA ALBUQUERQUE

Desde janeiro, Mariana é diretora de criação global da MediaMonks+Circus. Antes disso, trabalhou como redatora na Rothco (Dublin), FCB Brasil, Ogilvy Brasil e Publicis Brasil. Teve trabalhos reconhecidos pelo Anuário do Clube de Criação, Cannes Lions, One Show, e LIA, entre outras premiações. Em 2020, foi apontada como Next Creative Leader Latin America pelo One Club of Creativity (leia aqui).

As questões enviadas por Day Rodrigues e respondidas por Mariana Albuquerque são as seguintes:

Day – Quem são suas referências (artistas, escritores, cineastas, pensadorxs) para alinhar crítica e estética nas produções?

MARIANA Comecei a gostar de ler e escrever com o Luís Fernando Veríssimo. Daí, entrei em coisas mais pesadas como “Sandman” do Neil Gaiman e toda sua obra, tanto na literatura quanto nos quadrinhos, que, como Alan Moore, mostrou o lado sombrio das histórias de super-heróis. Em termos de roteiro e produção, eu sou muito fã da Phoebe Waller-Bridge, do Chris Nolan, do Jordan Peele. E já que estamos falando de terror, eu sou fã do universo icônico que o Wes Craven criou. No humor, gosto muito da Tatá Werneck, da Hannah Gadsby e da Wanda Sykes.

Day - Como você pensa a formação das suas equipes, do ponto de vista da diversidade étnico-racial? Existe um espaço para debater desigualdade de oportunidades nos seus projetos?

MARIANA - Criação é o remix das suas referências e das pessoas que estão à sua volta. Se você só tiver pessoas iguais, tudo vai sair do mesmo lugar. O que não é legal, porque as agências falam com o Brasil inteiro, de norte a sul. A verdade é que ainda temos muito a melhorar, e a gente sabe disso. Na agência existe sim uma preocupação para dar oportunidades a mais pessoas diversas, tanto étnico-racialmente quanto em gênero. Este ano, por exemplo, estamos fechando uma parceria com a Escola Rua, uma escola de criação para estudantes que não têm condições de pagar um curso de portfólio.

Day - Quais são os seus projetos de mundo, diante de um tempo tão explicitamente indiferente à arte?

MARIANA - Amo contar histórias, e ano passado eu descobri que posso fazer isso além do meu trabalho. Atualmente, estou escrevendo uma série de TV, um longa-metragem e estou ajudando em roteiros de séries de amigos. Eu amo o mundo do entretenimento, acredito no poder da história para criar empatia, cutucar uma posição política e dar visibilidade às pessoas invisíveis do dia a dia. Não sei se existe chance de alguma dessas ideias serem produzidas, mas só de colocar no papel já é muito gratificante.

Até amanhã.

 

Elas Perguntam, Elas Respondem

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