arrow_backVoltar

Meu título na Copa

Por Breno Costa, diretor de arte da Del Campo Nazca S&S

06.04.11

Eu podia falar da minha experiência na Argentina, do meu dia-a-dia na agência, do que percebi que torna a propaganda daqui tão diferente da do Brasil, mas não. Tudo isso pra mim é um pé no saco. Vou falar de um tema que, quando você é um brasileiro em território argentino, ganha extrema importância: futebol.
 
Quando a gente sai de nosso país, passa a se sentir mais brasileiro do que nunca. Diferente de quem segue por terras canarinhas, que só de 4 em 4 anos, na Copa do Mundo, tem sua nacionalidade à flor da pele.
Agora imagina o que é viver algo tão importante quanto um mundial fora do Brasil e pior, ou melhor, na Argentina.
 
Quanto mais se aproximava a estreia da seleção, mais ansioso ficava, até que o grande dia chegou. E nós brasileiros, nos juntamos. E assim assistimos as partidas, juntos, claro, em um restaurante brasileiro.
Na primeira partida, todos de amarelo, gritando muito, comendo feijoada, tomando Skol (que em terras argentinas só são encontradas em redutos brasileiros, mesmo) e torcendo. Vamos que vamos, ganhamos a primeira.

Sabe como é, a tensão real é a da primeira partida, depois você fica tranquilo. Sinceramente, vocês tem que admitir, pra a gente, depois da primeira partida, é questão de tempo até o Brasil chegar na final, mesmo que perca. Sempre foi assim e sempre vai ser. A tensão dos outros jogos da primeira fase é besteira perto da ansiedade da estreia.
 
Eles também estavam ganhando tudo. Eu ligava a televisão e só falavam do melhor jogador do mundo, infelizmente um argentino, Messi. Saia na rua estava tudo azul e branco, uma experiência diferente pra quem que tá acostumado com o verde e amarelo em época de Copa do Mundo. Pra aliviar minha situação, fazia de conta que era por causa do Paysandu (o melhor clube do Norte do Brasil), meu time de coração e que por coincidência também tem a camisa bicolor como a da Argentina.
 
Até que as oitavas de final chegaram, besteira também. Em 28 anos de vida nunca vi o Brasil cair numa oitavas de final.
 
Eles também ganharam.
 
Até que chegamos às quartas. Aí sim, a cabeça pensa e o coração tem medo.

Recapitulando um pouco, ninguém tava botando muita fé no Dunga e na seleção que ele armou, mas quando começa um mundial, a gente esquece de tudo e quer mesmo é ir pro oba oba, achando que vamos somar mais uma estrela no peito e começar a contar os títulos usando as duas mãos.
 
Aqui era igual, todos admiravam o Maradona, mas como treinador…
Mas começou o mundial e tudo mudou. A cada nova vitória, acreditavam mais nele. Inclusive ele prometeu que se ganhassem, sairia nu pela Avenida 9 de Julho (ainda bem que o destino foi prudente e nos poupou dessa imagem).
 
Saí atrasado pra encontrar meus amigos. Nosso rival era a Holanda e sempre o jogo é duro contra a Holanda. No meio do caminho, escuto esses f*%#@ da p%&* comemorando. Me subiu uma raiva, uma agonia, um negócio. Passo por uma televisão, e lá estava: 1x0 pra Holanda. Não podia acreditar. No resultado e no fato de que esses cornos estavam comemorando isso. Cheguei no restaurante, mas estava lotado, então fomos para o bar da frente. Até hoje me pergunto se não foi aí que perdemos o mundial, não é bom em uma quarta de final ver a partida em outro lugar. Pior ainda, não era um lugar brasileiro.
 
E aí, nesse bar, o resultado se consumou, 2x1 e a eliminação.
 
Quando saimos do bar, não podia acreditar, as pessoas comemoravam como se fosse uma vitória da Argentina, e se você fosse um brasileiro vestindo a camisa da seleção, não tinham consideração nenhuma com a dor que você estava sentindo.
 
O que esqueci de falar é que eles também, tinham passado as quartas e iam enfrentar a Alemanha. Ahhh! Mas a Alemanha, que não tinha feito uma campanha tão boa quanto a Argentina, que jogava feio e além disso, não tinha o melhor jogador do mundo na sua equipe.
 
E eu já pensava, p*%$ que pariu, vou ter que aturar meus amigos argentinos.
 
Mas as coisas começaram a mudar quando um tal de polvo Paul, um tipo de Mãe Diná de baixo d’água, escolheu a Alemanha como vencedora da partida.
 
Eu, ainda triste da derrota do dia anterior, decidi assistir o jogo sozinho, de dentro do meu apartamento, tipo um 'kitnet' onde se escuta quando o vizinho da parede ao lado resolve perpetuar sua prole. E parecia milagre. Não podia acreditar no que estava vendo.
A cada novo gol da Alamanha, sentia uma satisfação inexplicável.
 
Até que terminou a partida.
 
A única coisa que lembro é o resultado, 4x0 para a Alemanha, e de eu gritando sozinho no apartamento, PEGA, PEGA, CALLENSE HIJOS DE P*$%@, BRASIL  ES BRASIL Y USTEDES TIENEN QUE RESPETARNOS, numa mistura de português e espanhol e mais um monte de palavrões, nas duas línguas. Finalmente estava de alma lavada.
 
Devo admitir, já vi o Brasil ser campeão do mundo duas vezes, mas  nunca me senti tão satisfeito como com aquela derrota.


Por Breno Costa, diretor de arte junior da Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, em Buenos Aires, dupla de outro brasileiro, o redator Guilherme Souza.

Meu título na Copa

Por Breno Costa, diretor de arte da Del Campo Nazca S&S

/