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O Espaço é Seu

{LEIA} Sobre Abbey Road, viagens no tempo e o fim da Barton F. Graf

07.10.19

Esses dias fez 50 anos do lançamento do Abbey Road, o último disco gravado pelos Beatles.

Embora as coisas já estivessem bem complicadas entre eles e muita gente teorize que a música The End seria um prenúncio do fim iminente, a história não foi bem assim.

Em uma das tantas conversas gravadas no estúdio, John, Paul e George falam sobre planos para o novo álbum (que, hoje sabemos, nunca chegou a acontecer).

A verdade é que, na maioria das vezes, a gente simplesmente não sabe quando uma coisa vai chegar ao seu final.

O último beijo. O último dia no trabalho. A última vez que vemos alguém vivo.

Como saber? E, sabendo, o que fazer de diferente?

Este, basicamente, é o enredo de todo filme de viagem no tempo.

Pessoas querendo criar um universo paralelo onde não só se aprenda com os erros, mas nem se permita que eles aconteçam.

Não deixar que o filho de Sarah Connor nasça. Fazer com que os pais de Marty Mcfly se apaixonem. Impedir que Thanos estale os dedos.

Se os Beatles soubessem que Abbey Road seria mesmo o último trabalho juntos, será que fariam diferente? E se fizessem diferente, será que valeria a pena?

Falo dos Beatles, mas penso em agências.

Numa entrevista para o AdAge, Avinash Baliga, diretor de criação da Barton F. Graf, falou que ninguém na agência sabia de fato que ela iria fechar.

Ele tem uma teoria do por quê.

Se soubessem, mesmo que de forma inconsciente, eles poderiam ter começado a fazer o trabalho “seguro”. Trabalho que achassem que o cliente iria gostar em vez do tipo de trabalho que sabiam que deveriam fazer.

Se fizessem isso, poderiam salvar a agência. Mas o custo para isso seria deixar de ser a agência que era para virar outra coisa.

Era um custo alto demais para a Barton F. Graf.

No Brasil, quase simultaneamente, Fabio Fernandes anunciou o fim do seu tempo à frente da agência que fundou e que virou uma das mais respeitadas no mundo.

Parece que o Grupo Publicis também quis que a F/Nazca deixasse de ser a F/Nazca para virar outra coisa.

A DM9 já tinha deixado de existir bem antes de encerrar suas atividades. Foi morrendo lentamente, agonizando a cada concessão que a levava para mais longe do seu DNA.

Leo Burnett já sabia disso lá nos anos 1960. Quase na mesma época do Abbey Road, ele fez seu famoso discurso “When to take my name off the door”. Quando a agência passasse mais tempo querendo ganhar dinheiro do que fazendo boa propaganda, quando perdesse a sensação de que nada é bom o suficiente, quando trocasse a criatividade por uma linha de produção, nesse momento ela não mereceria mais ter o seu nome.

A verdade é que o sucesso de uma agência vai muito além da sua mera sobrevivência. Ele pode ser medido pelo seu legado. Pelas ideias e pelos ideais que ela deixa e que vão persistir mais do que a própria empresa.

Falo de agências, mas volto aos Beatles. Eles precisaram de apenas 10 anos para mudar a música para sempre.

No último disco, eles nos deram melodias inesquecíveis, como Here Comes the Sun e Something, um dos riffs mais icônicos do rock em Come Together e as incríveis variações vocais de Because.

Foram brilhantes até o final, talvez por não terem a certeza do fim estar tão próximo. Eram apenas quatro rapazes de Liverpool tentando se divertir enquanto trabalhavam.

E, em qualquer atividade, essa ainda é a melhor maneira de fazer algo realmente memorável.

Rafael Merel

Redator - Lew'Lara\TBWA

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