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O Espaço é Seu

Deus metal, Mariah Carey e os Tecnocratas (André Faria)

01.06.22

Se tem um negócio maleta no mundo da música é a tecnocracia. Não falo de techno, ritmo simples e doidão, mas do tecnocrata, o cabra complexo e careta que adora complicar o que é simples. É aquele que se esconde atrás dos complicadíssimos preceitos e conhecimentos científicos, dificílimos de entender e explicar. São os eruditos, os acadêmicos e o Ed Mota.

O Marcello Serpa conta uma história muito legal. Uma vez Pablo Picasso pagou a conta do restaurante com um desenho no guardanapo. Um rosto desenhado em simples três ou quatro traços. O dono do restaurante olhou aquilo e falou: "Ah, mano… isso? Isso até meu filho de 6 anos faz". E Picasso respondeu: "Então seu filho deve ser um gênio, porque eu demorei 60 anos".

É muito mais difícil simplificar do que complicar. E na música, seja o seu álbum ou a trilha do seu filme, não é diferente. Por isso os tecnocratas travam a roda. Porque se o cliente pede mais alegria o tecnocrata já manda um: "Veja bem, veja bem… esta composição já está em Lá maior mixolídio carpado com terça em Fá alegro buongiornow adaggio… mudar a essa altura do processo vai ser extremamente complicado". E assim ele sequestra o conhecimento, a trilha e o filme. Mesmo que ele faça outra trilha, o flow muda. É preto ou branco, sem troca, sem diálogo.

Semana passada recebemos um job de assinatura sonora. Pensamos, debatemos, criamos e apresentamos. Na hora do feedback, a cliente pediu desculpas por não saber se expressar tecnicamente e por isso tinha receio de falar besteira. E não era uma cliente qualquer, era uma monstra do mundo do marketing com anos de cases de sucesso nas costas.

E foi aí que decidi escrever esse texto. Para dividir o que dividimos com ela. Que ninguém precisa saber falar tecnicamente sobre música em propaganda. Muito menos ter receio de falar groselha. É justamente o contrário. Que venham as groselhas.

O capítulo "música" em qualquer reunião é sobre brisar. É criar um ambiente seguro para qualquer um se expressar do jeito que quiser. É ouvir com calma, absorvendo e devolvendo o que sentiu. E o papel do produtor é traduzir, sintetizar e materializar todo aquele feedback em algo melhor. E isso é bem diferente do ato mecânico de resolver o job.

Aqui na Evil evitamos ao máximo falar tecnicamente de música. Assim mantemos a capacidade de nos surpreendermos com o simples, assumir imperfeições humanas e colocar algo mais autoral no ar. E foi exatamente isso que combinamos com a nossa cliente da assinatura sonora. Temos um espaço seguro para falar o que e como quiser. E se for para ser algo assim meio creme dental tipo um jet-ski em slow-motion dando cavalo de pau na água mas com um toque do Deus metal e uma nota mais pro turquesa, vamos nessa. A gente vai testando até chegar. E, principalmente, vai curtindo até chegar.

Bônus Track:

Um bom exemplo disso é a história da Mariah Carey que o Mura, meu sócio na Evil, adora contar. Ela não toca nenhum instrumento, não lê partitura e possivelmente não sabe o que é Logic, Garage Band ou Pro Tools. Mas sabe o que ela tem? Uma sala com um sofá, um piano de cauda e um maestro só dela. Esses são os “instrumentos”. E sabe como ela toca? Sentada no sofá com uma taça de champanhe e seu cachorro do lado, brisando umas melodias e ideias para o maestro, que vai transpondo no piano até chegar, provavelmente, em mais um hit.

Por André Faria, sócio fundador Evil Twin Music

O Espaço é Seu

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