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Festival do Clube 2019

Como a neurociência estuda a criatividade humana

13.09.19

Pesquisadora e docente do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, desde 2014, Daiane Golbert se apresenta como professora e artista. Dedicada a estudar as bases neurocientíficas do sono, da memória e da aprendizagem na instituição potiguar, ela também é desenhista. Seu foco está na arte das mandalas, que analisa sob a abordagem psicanalista de Carl Gustav Jung. Essa combinação de expertises poderá ser vista no painel "Neurociência da Criatividade”, parte da programação do primeiro dia do Festival do Clube de Criação, que acontece entre 21 e 23 de setembro na Cinemateca Brasileira.

Formada em Ciências Biológicas na UFRN, em 2005, Daiane fez mestrado em Genética e Biologia Molecular, na mesma instituição, e doutorado em Genética na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2013, fez pós-doutorado na Fiocruz (RJ), em um projeto desenvolvido em colaboração com a Universidade de Debrecen, na Hungria. No ano seguinte, partiu para outro pós-doutorado, na Universidade de Brown, nos EUA. Ambos foram pelo programa Ciência sem Fronteiras.

No Instituto do Cérebro, pesquisa mecanismos moleculares, genéticos e celulares para entender como as fases do sono interferem com memórias. Daiane colabora também com outros projetos da instituição, como estudos de reprogramação neural, biomarcadores em esquizofrenia e efeitos de compostos ansiolíticos no cérebro.

Ser cientista no Brasil é um desafio, que ganha complexidade quando se trata de um caminho trilhado por mulheres. “A decisão de ser neurocientista foi uma confirmação, moldada pela artista curiosa que sempre fui, uma criança presepeira como se diz no Nordeste”, brinca a professora. Isso se consolidou quando Daiane ainda estava na graduação de biologia. Nessa época, começou a acompanhar o neurocientista Sidarta Ribeiro, em Natal. Professor e vice-diretor do Instituto do Cérebro, Sidarta é uma referência na área no Brasil.

Mulheres autônomas e criativas

Decidi ajustar minha carreira como neurogeneticista, trabalhando no Departamento de Neurociência na Brown University. Naquele momento, foi perceptível ‘the lack of women’ nas ciências, um problema de desigualdade social e mundial”, afirma. Sua jornada pode estimular novas carreiras não apenas em sua especialidade. “Precisamos e devemos ser exemplo de mulheres autônomas, resilientes e criativas para aumentar a participação feminina tanto nas neurociências quanto em várias outros campos científicos”, completa.

No lado artístico, seu interesse pelas mandalas surgiu na fase em que estava na Universidade de Brown, em Providence. Daiane sempre gostou de desenhar - fazia gravuras quando menina -, mas foi há cinco anos que esse pendor floresceu de vez. Por conta do isolamento em Providence, frequentava bastante o Starbucks local. Lá passou a criar nos copos de papel. O que era entretenimento ficou mais sério ao entrar em um concurso da rede para uma linha de recicláveis - que abandonou ao regressar ao país. “Os padrões circulares repletos de arabescos e fractais começaram a surgir”, lembra. Desde então foi se aprimorando no desenho. De volta ao Brasil, ampliou seu foco ao incluir estudos sobre Jung, que considerava mandalas como uma expressão do ser vinculada a motivações do inconsciente. Hoje seus desenhos estão compartilhados no Instagram e no Pinterest.

Parte dessas bagagens estarão em sua apresentação. “O painel abordará como a neurociência estuda e compreende a criatividade humana em processos de criação, dentro de aspectos cognitivos, emocionais e espontâneos”, conta. Serão explicadas as bases do funcionamento do cérebro no aprendizado de processos artísticos.

Criatividade de um e outro

Questionada se existem diferentes criatividades, se o cérebro criativo de um engenheiro é diferente da mente criativa de um publicitário ou de um músico, a professora responde que a criatividade, vista pela neurociência, envolve padrões de respostas neurais. “Podemos dizer que diferenças são produzidas por fatores relacionados a personalidade, ambiente, cultura, dentre outros fatores. Pelo olhar da genética, dizemos que a expressão da característica ‘ser criativo’ é definida por herança genética, epigenética e pelo ambiente. Com isso em mente, existem diferenças singulares entre a expressão criativa de um publicitário ou de um músico.”

Para quem está se perguntando, a epigenética busca compreender como alterações na expressão de genes ocorrem sem modificações na sequência do DNA. Ela explica porque um gene ligado a uma determinada função pode ser expressado ou inibido em diferentes partes do corpo. “Epi” significa “sobre” em grego, o que seria como dizer uma camada sobre a genética. "Na verdade, a epigenética é uma área recente. Por isso, ainda tem múltiplos significados descrevendo diferentes fenômenos. Está relacionada a um paradigma que surgiu sobre as leis da hereditariedade", esclarece.

A professora complementa: a sequência do DNA contém o código e a epigenética equivale a marcas que indicam o que deve ser interpretado. Um paralelo para compreender é entender a genética como um livro e a epigenética como um marca texto. "Estudando epigenética podemos chegar a uma melhor compreensão da transmissão de características não atribuídas apenas à sequência do DNA", diz. Entre essas características podemos relacionar a expressão criativa.

Com tantas informações - e desinformações - transitando pelos meios digitais, como incentivar os jovens a se interessar mais pelas ciências? “Os jovens têm a mente fervilhando de ideias, preocupações, sonhos... Se o incentivo vier de sutis motivações, buscando foco e tornando essas ideias “massa” (atrativas) para eles, isso é uma forma eficiente de incentivo”, acredita. Sobre a neurociência, Daiane destaca que é importante esclarecer que a área procura entender o funcionamento do sistema nervoso de modo profundo, mas de forma bem próxima da realidade humana. “Por exemplo, estudando os aspectos da motivação, o sistema de recompensa, a criatividade, os transtornos mentais, a compreensão dos sonhos e a ação de drogas”, enumera. Com abordagens assim, fica mais evidente quão interessante é a neurociência.

Veja a programação completa do Festival do Clube de Criação 2019.

 

SERVIÇO

Festival do Clube de Criação
Quando: Setembro, 21, 22 e 23 - 2019 - sábado, domingo e segunda-feira
Local: Cinemateca Brasileira - São Paulo – Brasil
Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino
Ingressos à venda (aqui). Garanta já o seu.
Hosted by: Clube de Criação
55 11 3034-3021
Facebook Clube de Criação
Twitter - @CCSPOficial
Instagram - @ClubedeCriacao

Teremos serviço de shuttle para quem quiser estacionar no Hotel Pullman Ibirapuera
Horário: das 08h30 às 22h30
Trajeto: Pullman / Cinemateca / Pullman

Abertura dos portões e do credenciamento: sábado, domingo e segunda às 9h

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