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O Espaço é Seu

Invisibilidade pode voltar em velocidade ultrassônica

30.04.19





Caso ainda houvesse alguma sombra de dúvida acerca do retorno dos tempos sombrios –embora, nos últimos 128 dias, quase que diariamente os jornais, revistas, podcasts e a mídia independente revelassem, sem meias palavras, os mais variados casos e despautérios de atitudes inconstitucionais, de privação de direitos, de naturalização da violência e de afrontas a uma sociedade, diga-se de passagem, "democrática"– a retirada de um dos comerciais da campanha do Banco do Brasil deu um passo além na escalada de absurdos dispostos na mesa. E duas palavras vêm à mente: arbitrariedade e censura; lembrando que a segunda anda de mãos dadas com a primeira.

Com a intenção de recorrer ao recurso humorístico para criar um paralelo entre o governo e a as agências de propaganda, a imagem mais fria e realista da cena seria a típica e transparente ferocidade do diretor de criação que acredita que a melhor ideia é sempre a dele. Sem precisar da certificação de bacharel em comunicação social, com habilitação em publicidade e propaganda, o senhor presidente da república já pode ocupar a cadeira mais cobiçada da hierarquia da criação, onde o sentador oficial adquire, substancial e divinamente, um direito inalienável de menosprezar tudo o que lhe desgosta e de não não ter a humildade de aceitar que a magia da ideia não está repousada em um indivíduo, mas possui uma forma etérea, que flui de um canto para outro e que, com observação, ousadia, risco e coragem pode ser materializada diante dos olhos de qualquer pessoa, a qualquer instante.

Arbitrariedade: o último capítulo que li da novela tragicômica foi uma declaração do dia 27/4/2019, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo –que vale a leitura aberta a interpretação, embora eu só tenha concatenado uma– onde o presidente da república disse "Por exemplo, meus ministros. Eu tinha uma linha armamentista, eu não sou armamentista? Então, ministro meu ou é armamentista ou fica em silêncio. É a regra do jogo". Bom, mas o que no comercial em questão desagrada tanto? A pluralidade da sociedade civil em sua plena constituição? Onde está a ofensividade de pessoas sorrindo, mexendo em celulares mostrando a experiência do usuário no aplicativo do banco? A facilidade para abrir uma conta digital e aproximar para si o controle das suas finanças? Atitudes arbitrárias começam despretensiosas e, aos poucos, constroem um roteiro historicamente comprovado por resultados com potencial para tornarem-se monumentais desastres.

Quando a opinião de um é levada a ferro-e-fogo, mesmo com instâncias de deliberação que ficaram semanas em discussões, aprovando orçamentos, selecionando o casting com base nos estudos demográficos e psicográficos, com horas de debates acalorados e idas e vindas de roteiros e anúncios, para chegar ao ponto mais dilapidado possível –àquele que demonstre a resposta mais adequada ao pedido discorrido no briefing, me ocorrem à cabeça: a intransigência do diretor de criação que é descrente na própria capacidade do time que ele compôs e aquela palavra que muita gente começa a temer dizer, como se fosse "aquele que não se pode dizer o nome" da franquia herética mais adorada da história do cinema.

Censura: na mesma declaração, o presidente ainda disse "A linha mudou. A massa quer o quê? Respeito à família. Ninguém quer perseguir minoria nenhuma [...]". Calma. A massa em questão, ao que me parece, deveria condizer à população do país como um todo, afinal trata-se de um país onde uma assembleia constituinte formulou um documento que daria origem a direitos e deveres a todos os cidadãos e a todas as cidadãs, construindo essa linda maravilha política denominada "democracia", que traz consigo a possibilidade de cada brasileiro e brasileira atingir o máximo das suas potencialidades para uma vida plena, próspera e a existência de uma sociedade em comunhão civilizada.

Mas, se a massa à qual o presidente refere-se equivale apenas ao montante de pessoas que votaram nele –a saber, com exatidão: 57.797.847 votos–, e o país, em sua totalidade, abarca 209.839.707 habitantes, segundo o IBGE, significa que a massa resultante da subtração está, automaticamente, em desamparo constitucional, pilheriada de toda a sorte de direitos, sem possibilidade de representatividade e excluída de toda e qualquer forma de pertencimento? Bom, segundo a declaração citada anteriormente, é isso mesmo. Quem há muito custo conseguiu sua representação imagética nos veículos de comunicação em massa, agora pode ficar destranquilizada que a fase da invisibilidade está voltando em uma velocidade ultrassônica, e sem radares de detecção para apontar a infração.

Fico imaginando o estado de perplexidade do presidente fazendo uma visita às agências de propaganda responsáveis pelos projetos de comunicação das empresas estatais: vai encontrar cabelos tingidos com mais tons possíveis dos que os numerados na escala Pantone, roupas rasgadas, homens e mulheres, brancxs, negrxs, lésbicas, héteros, trans, assexuados e ad infinitum habitando o mesmo ecossistema, as tatuagens preenchendo os espaços de pele da unha do dedinho do pé ao topo da cabeça.

"Isso é um descalabro. Não é possível. Cadê a tradição? Os valores morais? Reveja a equipe, táokey?"

Para além da brincadeira, a situação é alarmante e deve ser tratada com a devida seriedade, porque, por mais insensata e autocrática que a atitude tenha sido, ela demonstra um comportamento complexo de apropriação do que pode e do que não poderá, a partir de agora, ser pensado, dito, apresentado e representado: do que poderá e não poderá ser veiculado.

Hoje, é um comercial tirado do ar porque "ofende" os valores da tradicional família brasileira. E amanhã? O quê vai ser? (Para a resposta, deixo o parêntese aberto para preencher com o que pode vir a ser a próxima espoliação, e com as devidas reticências para que não delimite as probabilidades...

A "democracia" entre aspas não é incidental, é proposital, porque ela está, a cada dia passado, mais esvaziada de sua própria significação e, em mesma escala, sempre distanciando-se de uma forma de governo que abarque a população em sua composição total e irrestrita, sem distinções.

Os 55,13% representam o número de votos, não a completude populacional para quem o presidente da república deve governar o país: o povo não é uma parcela destacável e passível de habitar uma redoma exclusiva e perpetuar a segregação entre "nós" e "elxs" é perpetuar o descaso, a ignorância, os privilégios e estender ao limite a capacidade de elasticidade dessa maneira presunçosa e obtusa de agir.

Que aquele sonho que prosperou no horizonte em 1963 una-se ao governo do povo, pelo povo e para o povo, vislumbrado 100 anos com o lampejo da liberdade: quem sabe esse encontro seja capaz de retirar as aspas para emergir a verdadeira força da democracia.

Por Glauco Mazrimas, redator publicitário freelancer [desempregado], escritor com livro no prelo - pela Chiado Books -, e a favor da democracia sem aspas.












 



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