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SxSW 2022

Crianças e jovens trans e a chance de sonhar o futuro

21.03.22

Sonhar o futuro pode parecer simples. Mas para algumas pessoas isso chega a provocar dor, tão difícil é pensar o amanhã. É o que se revelou entre integrantes da comunidade trans do Texas quando o governador Greg Abbott determinou, em fevereiro, que um departamento, o da Família e Serviços de Proteção, passasse a investigar todos que solicitassem tratamentos hormonais para menores de idade trans. Em função dessa medida, os pais desses jovens poderiam ser julgados por abuso infantil. O caso gerou medo e tensão entre famílias, mas teve apoio de ativistas dos direitos humanos e em especial de quem passou por situações angustiantes nos tempos escolares. O assunto foi discutido no SxSW 2022 painel “Trans Texans Need Us: Hear From the Front Lines”.

O primeiro a falar foi Hugh Forrest, Chief Programming Officer do SxSW, que comentou que o evento não poderia ignorar as ações contra a comunidade trans determinadas por Abbott. “O SxSW se posiciona contra a discriminação em todas as formas”.

Forrest recebeu os participantes do painel: a mediadora Jessica Shortall, diretora da Texas Competes, organização empresarial focada em combater a discriminação contra a comunidade LGBTQIA+; Andy Marra, diretora executiva do Transgender Legal Defense & Education Fund; Charlie Apple, um estudante trans de 18 anos que tem falado sobre a rotina de meninos e meninas trans nas escolas do Texas; Diamond Stylz, diretora executiva da Black Trans Women Inc e criadora do podcast Marsha’s Plate, com três trans blacks que falam de cultura pop; e Emmett Schelling, diretor executivo da Transgender Education Network of Texas (Tent). Havia duas cadeiras vazias no palco dedicadas aos pais de crianças trans, que tiveram receio de aparecer publicamente para não atrair a atenção dos agentes designados por Abbott para investigar as famílias.

Jessica relatou um pouco de medidas anti-LGBT tomadas no país desde 2015. Naquele ano, o casamento para a comunidade LGBTQIA+ estava no horizonte e isso desagradou o público mais conservador. Nesse período, surgiram múltiplas tentativas para restringir isso, como projetos de lei que permitiriam que praticamente qualquer serviço se negasse a atender casais gays alegando motivos religiosos. Em 2017, passaram a crescer entre legisladores conservadores em diversos estados as medidas chamadas de “bathroom bills”, que visavam proibir o uso de banheiros e vestiários públicos e escolares por pessoas trans se estes não correspondessem à “identificação sexual conforme a certidão de nascimento”. Jessica contou que, na maioria das vezes, essas batalhas foram vencidas pelos movimentos LGBTQIA+.

Mudança de alvo

Nos últimos três anos, tivemos um foco intenso em micro campanhas direcionadas a crianças transgênero, especificamente. É onde estamos hoje”, afirmou Jessica. Entre as propostas que começaram a ganhar força estava o banimento de esportes por jovens trans. Também entraram na mira tratamentos de saúde. E agora, neste ano, ressaltou Jessica, as proposições que atingem garotos e garotas trans nas escolas estão no topo das ações contra a população LGBTQIA+ nas esferas legislativas do país.

No Texas, o governador emitiu uma diretriz para o Departamento de Serviços de Proteção à Família (DFPS, na sigla em inglês), que essencialmente dá ordens para que agentes investiguem os programas de saúde de afirmação de gênero dedicados a menores, procurando criminalizar pais e médicos por “abuso infantil” e orientando que a população “denuncie” vizinhos que possam ter filhos transgêneros, esclareceu Jessica.

O procurador-geral do estado, Ken Paxton, fechou fileiras com Abbot ao escrever que “procedimentos para mudança de sexo constituem abuso infantil”, tornando a luta ainda mais árdua e levando famílias a se esconder. “Estão fazendo com que o Texas pareça um estado vigilante neste momento”, completou. “Nosso trabalho é defender essas crianças”.

Para Emmett, que é um homem trans que imigrou da Coreia do Sul como criança adotada por uma família americana, uma das formas de combater as medidas do governo é mostrar o que está acontecendo para a população. Assim, cartas foram escritas por famílias e jovens trans para falar da situação e estas foram lidas por voluntários. Isso gerou comoção pela internet e ganhou espaço na mídia. A leitura foi feita por terceiros porque as pessoas visadas não poderiam aparecer para compartilhar suas histórias. Ele revelou que muitas famílias estão procurando advogados para se protegerem.

Andy pontuou que Abbott e Paxton não se baseiam em premissas médicas, científicas ou legais ao dizer que pais de crianças trans estão cometendo abuso infantil ao autorizar procedimentos de afirmação de gênero. Além disso, lembrou Andy, a legislação federal não faz discriminação ao tratar de acesso da população à saúde. De fato, dias antes do painel, uma juíza havia cassado a diretriz de Abbott, mas Paxton e políticos aliados do governador texano prometeram reagir com novas ações.

Segundo Andy, grupos conservadores estão fazendo campanhas contra a juventude trans porque já perderam as batalhas a respeito do uso dos banheiros, entre outras que afrontam os direitos da comunidade LGBTQIA+. Uma das movimentações é a tentativa de remover “livros com temática queer” das bibliotecas escolares, fora o ataque sobre os programas de saúde. Mas ela ressaltou que o Affordable Care Act – apelidado de Obamacare –, de 2010, proíbe que os serviços de saúde bancados pelo governo federal discriminem pacientes com base na identidade de gênero.

A lei não mudou”, assegurou, acreditando que a Justiça irá derrubar as medidas contra as terapias de saúde de garotos e garotas trans. Andy, que ficou muito emocionada durante o painel, reforçou que negar atendimento pode ser ilegal, bem como revelar informações de um paciente para uma agência, violando seu direito à privacidade.

A preocupação devia ser apenas com a escola

A questão é que o problema supera a disputa judicial. Há muita confusão e insegurança. Charlie, que tem 18 anos e se assumiu trans aos 13, representa os jovens que estão na mira do estado texano. “Os funcionários do governo deveriam proteger nossos direitos, mas agora eles estão falando como minha existência fosse abuso infantil e como se eu precisasse ser removido da minha família e colocado no sistema de adoção”, disse. Charlie comentou que a campanha de Abbott e seus aliados tratam seus pais como abusadores de crianças “quando eles nada fizeram além de me amar e me apoiar na minha transição”.

Esse é o tom das mensagens dadas por esses políticos e que estão criando ambiente de medo. “Ainda estou no ensino médio e me preocupo com o dia em que um dos meus professores poderá me denunciar ou minha família ao DFPS. Não confio em ninguém. Essa é uma situação horrível de se viver quando você está tentando passar pelo seu último ano na escola”, acrescentou.

Ainda que com voz serena, Charlie desenhou o drama que repousa hoje sobre seus ombros. “Eu tinha de estar preocupado com a faculdade e não com isso. Essa é uma daquelas situações em que sinto que não posso fazer nada. Porque estou à mercê de pessoas poderosas que não querem me entender e que não querem cuidar de mim. Eles querem colocar uma agenda política no meu corpo e sobre quem eu sou como pessoa”, afirmou. “Serei bem honesto. É bastante óbvio que sou trans. Sou bastante aberto sobre isso. Eu me preocupo com o dia em que alguma pessoa armada aja contra mim”.

Lutas do passado para influenciar o presente

O depoimento de Charlie no painel levou Diamond a relembrar de seus dias na escola. “Fiz a transição nos anos 90. Naquela época eu queria muito só estar sendo uma criança do ensino médio. Sinto muito que você tenha de lidar com isso nestes tempos, com coisas contra as quais eu e as pessoas que fizeram a transição nos anos 90 e nos anos 2000 tivemos de lutar para que vocês pudessem ser um pouco mais livres. Mas aqui estamos nós e temos de lidar com isso. Sinto muito. Você não deveria estar lidando com loucuras adultas. Nós queremos que você tenha um ensino médio incrível”, salientou.

Diamond, que tem 40 anos, falou sobre o aumento de casos de pessoas trans com ideação suicida. São jovens que não querem ir à escola. São pessoas com ataques de pânico ou que estão vivendo situação que afetam sua saúde mental e suas necessidades sociais. Muitas dessas pessoas não tiveram apoio de seus pais ou de outros adultos. Diamond contou que trabalhou duro para configurar um sistema de apoio que atende a comunidade LGBTQIA+. Ela pontuou que já há muitas coisas a se lidar na escola, como os bullies, que existem. Por isso, ela se perguntou como ficará a saúde mental desses jovens com políticos, “os grandes adultos”, tratando-os de maneira errada a respeito de como viver suas vidas.

Segundo Diamond, isso tem feito com que algumas famílias mudem de estado para garantir a proteção de seus filhos. Mas e quem não tem essa condição? “Pessoas pobres não têm uma rede de segurança para isso”.

Morador de uma cidade pequena no sul do Texas, Charlie dirige um grupo formado por estudantes LGBTQIA+ em sua escola e contou que é a pessoa trans mais velha que muitos de seus colegas conhecem. São jovens que não contam com apoio em suas famílias e frequentemente é nesse grupo que se sentem à vontade para serem quem são. “Sei que minha escola mudou e as crianças estão mudando e melhorando. Mas ainda há adultos que têm poder sobre nós. Somos crianças, não podemos incomodar os professores. Sei que sempre que sofro bullying ou assédio não posso pedir ajuda a eles. Questões trans para esses professores são muito complicadas para que tentem lidar. E transferências não são fáceis. Não achamos que existe segurança e isso é aterrorizante. Essas crianças estão com muito medo e não sabem como será seu futuro. E elas não têm mais ninguém para lhes dizer que tudo ficará bem”.

O futuro que não se viu e o futuro que pode ser

Andy, que também foi uma criança adotada, pontuou que quando um jovem é capaz de ser visto como quem é, isso tira o peso do mundo de seus ombros e ele pode se concentrar em outras coisas, como tirar nota máxima em História e poder fazer mais amigos. “Isso permite que os jovens prosperem e é isso que está sendo ameaçado”, alertou. Ela destacou que mais e mais jovens estão se assumindo e se sentindo apoiados por suas famílias.

Por isso, elogiou o que estudantes como Charlie vem fazendo. Para ela, ativistas da nova geração “representam o futuro que não tivemos”, o que foi dito com a voz embargada, demonstrando quanto isto ainda a impactava. Em seguida, declarou que vale a pena lutar para que essas pessoas possam sonhar o futuro, como as trans de sua época não puderam.

De acordo com Andy, o governador do Texas e seus aliados – bem como políticos de outros estados que pensam em adotar medidas semelhantes – querem levar as pessoas a acreditar que os jovens trans e suas famílias estão tirando algo dos demais. “Ninguém está tirando nada de ninguém. Trata-se de aumentar o acesso para mais pessoas”, afirmou.

Charlie emendou: “Como um garoto trans, você precisa definir seus próprios planos para fazer. Tem de dizer a outro adulto quem você é. O cuidado de afirmação de gênero nos permite ter um futuro. Um futuro que eu não achava que conseguiria. Agora penso que, apesar de tudo isso, sinto que estou indo muito bem. Ainda estou lutando a mesma luta que tenho toda a minha vida. Esses legisladores para mim não são diferentes dos valentões do ensino médio. Eles usam a mesma retórica. Eles falam comigo da mesma forma, mas eles não me assustam e eventualmente vão embora. Eu ainda sou um garoto, mas espero poder contar às pessoas sobre a experiência que estou vivendo”.

O jovem estudante espera que em algum momento outras crianças trans não precisem vivenciar as mesmas questões que estão atravessando gerações. “Elas ainda não acabaram, mas espero que sim um dia”.

Clubeonline esteve no SxSW 2022 por conta do patrocínio de Africa; Arena; Beats; Chucky Jason; Live; Mutato; Netza&cossistema; New Vegas; 99; Publicis Brasil; Smiles e Soko.

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