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Festival do CCSP 2014

O desfile-espetáculo de Paulo Barros, entrevistado por Olivetto

21.09.14


Entrevistado por Washington Olivetto no dia de abertura do Festival do CCSP deste ano, o premiadíssimo, inventivo e inspirado carnavalesco Paulo Barros falou sobre seu processo criativo e a experiência de liderar uma equipe de quatro mil pessoas antes e durante os 80 minutos da Marquês de Sapucaí. Falou também sobre o avanço do ‘politicamente correto’ no cangote dos desfiles das escolas de samba.



Barros iniciou sua carreira em escolas dos grupos de acesso do Carnaval carioca, até chegar à Unidos da Tijuca. E foi na escola que fica no Morro do Borel que ele se transformou em um dos maiores nomes do Carnaval brasileiro – com dois vice-campeonatos, em 2004 e 2005, e três títulos nos últimos cinco desfiles (em 2010, 2012 e 2014). Em 2015, porém, ele estará de casa nova: será o carnavalesco da Mocidade Independente de Padre Miguel, cujo tema será sobre o ‘fim do mundo’.



“Meus olhos são a fonte de inspiração do que levar para a avenida. Eu vejo coisas que chamam minha atenção, guardo aquela imagem, e depois, quando surge uma oportunidade, a transformo em algo inesperado. Certa vez, passando de carro, vi um caminhão cheio de panelas penduradas. Mais tarde, para determinado enredo, criei um homem de lata feito de panelas. As ideias são registradas por meus olhos e a ideia é sempre fazer o Carnaval pensando na forma como ele vai impactar os olhos de quem o assiste, de quem a gente quer emocionar”, explicou. “Temos um pouco mais de uma hora para atingir o coração daquelas 70 mil pessoas que estão no Sambódromo. É para elas que levamos o espetáculo”, completou.



“Na publicidade, podemos ver o resultado final de um trabalho antes dele ir para o ar. Como é fazer um desfile sem ter a exata ideia de como ele será no dia?”, perguntou Olivetto. “Um resultado de 11 meses de trabalho só está pronto quando o último carro alegórico entra na avenida. E reamente não saber no que vai dar é complicado. Mas aprendi a cuidar bem da minha cria. No dia do desfile, não saio de uma determinada curva do Sambódromo até o último instante, corrigindo os erros que vêm da concentração. Aí, aquela equipe, de mais de quatro mil pessoas, precisa cuidar cada um da sua obrigação para que tudo saia da forma que imaginamos. Tudo faz parte de uma engrenagem, que começa em abril de um ano e termina em fevereiro do outro. Temos o desenvolvimento do enredo, com desenhistas e projetistas, os empreiteiros para a produção das roupas, os engenheiros e ferreiros que vão preparar os carros, a madeira, a fibra, a espuma, a venda das fantasias, os ensaios técnicos, a bateria, o público. O grande desafio é gerir tudo isso e como fazer para que isso tudo não saia do controle”, reforçou Barros.



E o avanço da tecnologia tem mudado a forma com que os desfiles são preparados? Barros ainda prefere fazer as coisas à moda antiga. “Tentamos realizar os efeitos que a tecnologia pode proporcionar sem tecnologia”, brincou. “Como trabalhei muitos anos nas escolas dos grupos de acesso, aprendi a me virar com criatividade – e sem muito dinheiro. Ou a ideia é boa e simples ou ela é impossível”, refletiu. Vale lembrar que a Tijuca “assombrou” o Brasil em 2010 com o enredo ‘É Segredo’, ao, simplesmente, usar truques de mágica em sua Comissão de Frente (veja aqui matéria do Fantástico que explica o truque).



“Quando temos a liberdade para definir o enredo, sem que a escola interfira nos conceitos, as coisas fluem com mais facilidade. Quando partimos de uma história pré-concebida, porém, temos que seguir algumas direções, mas sempre podemos criar algo novo”, explicou o carnavalesco. Traduzindo para a publicidade: ou você leva a ideia para o cliente (que logo a aceita porque ela parece genial) ou altera o briefing que o Atendimento trouxe até você.



E o ‘politicamente correto’ também tem atingido os desfiles. Em 2008, a Viradouro, escola de Barros na época, foi proibida de colocar na avenida um carro alegórico que tinha como tema o Holocausto (relembre aqui). “Pode no cinema, pode no teatro, pode na televisão. Só não pode no Carnaval. Mas Joãzinho Trinta já havia sofrido com isso há muito tempo, quando um carro com o Cristo Redentor foi proibido de desfilar. Gênio que era, resolveu da melhor forma possível – e que impactou ainda mais as pessoas: o cobriu com um pano preto e colocou uma faixa com a frase ‘Mesmo proibido, Olhai por Nós” (relembre aqui). Problema brilhantemente resolvido”, disse Barros.



Para o ano que vem, a Mocidade Independente pretende “liberar o hospício”: em uma livre adaptação da música ‘O último dia’, de Paulinho Moska e Billy Brandão, o enredo de 2015 retoma um tema que sempre impressionou a humanidade: "afinal, o que fazer se o mundo for acabar amanhã e nos restar apenas um dia para viver?".



Vem mais show por aí. “Qualquer coisa que aparecer na avenida está dentro do enredo. E lógico, gosto de vencer e sou contratado para isso. Mas a melhor coisa de todas é ouvir uma pessoa falar: ‘só voltei a ver Carnaval por causa do seu desfile’”, sorriu Barros.



Por Renato Pezzotti



Serviço:

Festival do Clube de Criação de São Paulo

Quando: dias 20, 21 e 22 de setembro (sábado, domingo e segunda-feira)

Onde: Cinemateca Brasileira - Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, em São Paulo

Dúvidas: 55 11 3030-9322

ccsp@ccsp.com.br

www.festivaldoccsp.com.br


 


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